UDR ARRECADA CR$419 MILHÕES EM LEILÃO

A UDR (União Democrática Ruralista) está preparando um levante. Até onde se sabe, não tem nada a ver com o brasileirismo que virou sinônimo de revolta. Trata-se de levantar a própria UDR, que sumiu há quatro anos. Para tentar ressuscitar a entidade aconteceu anteontem em Presidente Venceslau (SP), o "Leilão do Levante". O leilão de 761 cabeças de gado engordou o caixa da UDR em Cr$419 milhões. Ali no caixa está o principal sintoma da maior queda da UDR desde que foi criada em 1986. Semana passada, o novo presidente da entidade, Roosevelt Roque dos Santos, 44 anos, tinha Cr$40 milhões. Há cinco anos, a UDR chegou a ter US$6 milhões, segundo a Comissão Pastoral da Terra; a UDR diz que tinha US$1,5 milhão. Há outros sintomas da derrocada: -- 173 escritórios regionais da UDR foram fechados nos últimos dois anos. Dos 94 que sobreviveram, cerca de 30 funcionam; -- a sede de Brasília (DF) chegou a ter 30 funcionários em 1987. Hoje, uma secretária anota recados; =-- há quatro anos a UDR Nacional não realiza leilões. Por tudo isso, a UDR chegou a cogitar seu fim. Foi em novembro do ano passado, em reunião com 41 diretores realizada em Ourinhos (SP). Foi ali que Roosevelt aceitou assumir a presidência. Tomou posse há dois meses, com o plano de reerguer a UDR. "Se não lavantar vôo, acabo com a UDR", ameaça. O governo Collor também ajudou os ruralistas a sossegarem. "O Cabrera é nosso e o Collor é um homem de confiança", diz Nagib Abudi Filho, 53 anos, produtor rural de Londrina (PR) que presidiu a UDR entre 1990 e 1992. O Cabrera a que ele se refere é o Antônio, ministro da Agricultura, cujo pai dirigiu a UDR de Ribeirão Preto (SP). A UDR é uma entidade ocasional; só se mexe quando tentam mexer no calo dos ruralistas-- a terra. Tragédia não há, mais riscos-- e em dose tripla. O primeiro deles é a votação das leis complementares aos artigos 184, 185 e 186 da Constituição, que definem a posse da terra. O segundo é a possibilidade de uma lei complementar alterando o Imposto Territorial Rural, e o terceiro, é a revisão constitucional agendada para o próximo ano. O novo presidente da UDR, Roosevelt Roque dos Santos, diz que donos de terras "podem reagir com armas" na iminência de ocupação. "A lei dá esse direito, invasão é crime", interpreta o advogado. Roosevelt foi vice de Ronaldo Caiado entre 1986 e 1988 e chegou a assumir a presidência entre 1988 e 1989. Antes, foi vereador entre 1969 e 1982. Começou na Arena. "Sou de direita, nunca escondi", diz. Dono de 1.850 hectares e 2.700 cabeças de gado, define-se como um fazendeiro modesto. "Não tenho nem avião". Anda com uma camionete D-20. Vive numa casa de 393 m2 em Presidente Venceslau. "Sou mais diplomata", diz, quando se pergunta se ele não é uma espécie de "Caiado 2 -- O Resgate" (FSP).