Uma economia de mercado sem a intervenção do Estado significa a soberania do consumidor, que teria todos os recursos, internos e externos, aplicados na produção dos bens e serviços que quisesse. A explicação é de Ubiratan Iório, presidente do Instituto de Economia Política da Universidade Estácio de Sá, que vê no presidente Fernando Collor o maior defensor da doutrina liberal. Os liberais acreditam que a desregulamentação da economia, com a aceleração do processo de privatização e a abertura do país às leis de mercado internacionais fará com que uma grande quantidade de recursos externos-- que em busca de boas oportunidades de investimentos-- aportem no país. A discussão toma importância num momento em que a política monetária conduzida pelo Banco Central perdeu fôlego, a inflação "soluça" para cima e a reforma fiscal se tornou prioridade número um do governo-- em defesa da qual até o diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Michel Camdessus, se reuniu com políticos e sindicalistas em São Paulo num encontro histórico. O FMI considera essencial a aprovação da reforma fiscal para redução da inflação e as negociações de redução da dívida externa junto aos bancos credores. Com um ajuste estrutural, que passa pela liberação da economia e a
47652 redefinição do papel do Estado, os investidores estrangeiros vão entender
47652 que o Brasil tomou juízo. Para demonstrar que o país está falando
47652 sério, o próximo passo deveria ser a privatização da PETROBRÁS, ou pelo
47652 menos o fim do monopólio estatal do petróleo, pois isso serviria para
47652 acabar com um tabu. O capital estrangeiro é cauteloso e o dinheiro ainda
47652 não assentou no país por causa dessa instabilidade econômica, onde as
47652 regras do jogo podem mudar a qualquer momento, afirma Ubiratan Iório. Para o sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), "o neo- liberalismo é uma armadilha ilusionista, pois não existe desenvolvimento capitalista sem um Estado forte". Ele cita o exemplo americano, onde o governo define as prioridades nacionais, protegendo a agricultura, o setor de calçados e o de informática. "Hoje o mercado americano é aberto porque a maior parte dos investimentos estão indo naquela direção e mesmo assim ele trava uma queda de braço com o governo Japonês, cada um pressionando o outro para abrir sua economia. É uma luta política e não de mercado", afirma Herbert de Souza. Na sua opinião, todo o sacrifício imposto à sociedade em nome da estabilização econômica foi em vão, pois a inflação continua alta, a recessão é cada vez mais forte e não há perspectiva de melhora. Ele vê uma contradição entre o discurso e a prática do governo Collor, que foi o que mais praticou intervenção bruta na economia, como o confisco da poupança, em nome do liberalismo. Para o economista Domênico Mandarino, diretor da Faculdade de Administração e Finanças da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o Estado cortou até o osso os investimentos em áreas essenciais como saúde e educação. Mandarino considera o quadro perverso porque a iniciativa privada não mostrou interesse em assumir o lugar antes ocupado pelo Estado. "A economia brasileira está passando pelo estágio da estagflação porque é oligopolizada, com um grau de competitividade muito baixo", afirma Mandarino. Extremamente líquido, o mercado de capitais internacional é hoje cortejado no mundo inteiro. O Brasil é sempre considerado um país "Blue Chip" para entrada de investimentos. Na opinião de diversos especialistas, só não vieram com mais força-- ficaram restritos ao giro nas bolsas de valores-- por causa do excesso de regulamentação na economia. Na visão puramente capitalista, o Brasil é melhor que os países do
47652 Leste Europeu pois neles o desastre é ainda maior porque não existem
47652 regras contábeis e as transformações necessárias são muito mais penosas
47652 do que as da América Latina, afirma Donald Stewart, presidente do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e dono da Ecisa, para quem o raciocínio do capitalista é lógico e racional pois ele só investe onde haja oportunidade de negócios. Na opinião do sociólogo Herbert de Souza, a lógica do grande capital é produzir perto dos melhores mercados, que são mais ricos e com maior poder de compra. Por esse raciocínio, ele considera óbvia a preferência do capital estrangeiro em países como EUA e Europa. "Por outro lado quem faria investimentos aqui seriam as grandes corporações, que já estão aqui dentro. Quem mais viria?", questiona Herbert de Souza. A argumentação é refutada por Domêncio Mandarino, afirmando que o Brasil oferece condições de atuar com tanta liberdade numa economia como a americana, por exemplo, onde o atual estágio de desenvolvimento dificulta a competição. "Hoje a América Latina oferece oportunidades de retorno que não são encontradas nos países com economia mais desenvolvida", afirmou (JC).