Os assessores jurídicos da FUNAI, Amaury Azevedo e Otávio Uchoa, chegam hoje a Redenção (PA) para preparar a defesa do índio Paulinho Paiakan, 37 anos, acusado de ter estuprado e torturado há uma semana a estudante Sílvia Letícia da Luz Ferreira, 18 anos. O delegado José Barbosa de Souza, 50 anos, responsável pelo inquérito, pediu a prisão preventiva de Paiakan, líder indígena da aldeia A-Ukre dos índios caiapós. Paiakan é para os ambientalistas um guerreiro na defesa dos interesses indígenas e na luta pela preservação do meio ambiente. Foi premiado com o Global 500 e homenageado tambem com o diploma da Sociedade por um Mundo Melhor, em Washington (EUA). Segundo Azevedo, o líder indígena e sua mulher Arekran, também acusada de participação no estupro, estão "sob a custódia da FUNAI". "Eles estão em local seguro", afirmou, sem revelar onde é o lugar. Para Azevedo, há falhas técnicas no inquérito. "Eu questiono tudo: a lisura dos exames de corpo delito e até o próprio estupro", disse. Azevedo não quis adiantar quais as medidas que serão tomadas pela FUNAI para a defesa de Paiakan. Os principais caciques caiapós estão no Rio de Janeiro, onde devem inaugurar hoje uma exposição sobre a ciência de sua tribo, dentro de um projeto de divulgação da cultura tradicional e sua contribuição para a ecologia, na Rio-92. Eles evitam comentar o assunto. A direção da empresa britânica Body Shop, com quem Paiakan comercializa óleo de castanha para a produção de cosméticos, anunciou, em fax enviado à imprensa, que "esse episódio transcende nossas relações comerciais e pessoais com a comunidade". Os cerca de três mil índios caiapós que vivem no Sul do Pará, numa reserva de 3,2 milhões de hectares, são os mais ricos do país. Além da própria riqueza que a floresta amazônica proporciona, em madeira e ouro, possuem casas de alvenaria, água encanada, luz elétrica e antenas parabólicas. Administram, ainda, contas em bancos, investimentos no mercado financeiro, negócios no exterior, carros do ano, aviões e empregadas domésticas brancas. Somente a venda de madeiras-- os caiapós são os únicos a poderem explorar o mogno, o que não é permitido aos brancos-- rende aos caiapós, anualmente, US$120 milhões (mais de Cr$360 bilhões, no câmbio paralelo) (FSP) (O Globo).