Está no Brasil a pior distribuição de renda do mundo: aqui, os 20% mais ricos da população têm uma renda 26,1 vezes maior que a dos 20% mais pobres. Deste ponto de vista, estamos em situação muito pior do que países como Gana (onde os 20% mais ricos ganham 6,9 vezes que os 20% mais pobres) ou mesmo Bangladesh (onde o fator que mede essa distância não passa de 3,7). Estas são algumas das conclusões da pesquisa conduzida pela equipe do Programa de Desenvolvimento da ONU, cujos resultados foram publicados no "Human Development Report 1992" ("Relatório sobre o desenvolvimento humano 1992"). E o pior é constatar que é enorme ou pessimamente dividido o bolo brasileiros: o Produto Interno Bruto (PIB) do país, de US$319,2 bilhões, segundo dados de 1989, é o décimo do mundo (excluída a União Soviética, que ainda existia como nação). Até Botswana consegue distribuir melhor seu minúsculo PIB de US$2,5 bilhões (0,7% do nosso), para não falar da Jamaica (PIB de US$3,9 bilhões), da Costa do Marfim (US$7,2 bilhões) ou do Peru (US$28,6 bilhões). Gana e Bangladesh, por sinal, têm PIBs de respectivamente US$5,3 bilhões e US$20,2 bilhões. No grupo estudado de países em desenvolvimento, a única economia de dimensões comparáveis à do Brasil é a da Índia, que tem um PIB de US$235,2 bilhões-- mas lá os mais ricos ganham apenas 5,1 vezes mais do que os mais pobres. A riqueza ou pobreza de um país não pode ser medida apenas pela sua produção global: é preciso dividi-la pela população, para verificar quanto cabe a cada um. E as contas mostram que o Brasil, último em termos de distribuição de renda no mundo, vai bastante bem no que se refere ao PIB per capita. A fatia do PIB que cabe a cada brasileiro é de US$2.540, segundo a ONU (dados de 1989), enquanto a média nos países em desenvolvimento é de US$700. Ainda há muito o que percorrer rumo à abertura da economia brasileira. Por maiores que sejam os superávits da balança comercial do país, o comércio exterior-- exportações mais importações-- em relação ao PIB coloca o país em 77o. lugar entre as nações em desenvolvimento: o percentual não passa de 17%. A média global dos países em desenvolvimento é de comércio exterior equivalente a 41% do PIB; nos países desenvolvidos, de 31%; e em todo o mundo, de 32%. A dívida externa brasileira, proporcionalmente ao tamanho da economia do país, está entre as menores no mundo em desenvolvimento. A constatação dos técnicos da ONU pode chocar quem está habituado a atribuir ao endividamento a desigualdade de renda no Brasil-- e não só a desigualdade, mas todas as mazelas de nossa economia. Seria por sinal uma dedução lógica se, a par de termos da pior distribuição de renda, tivéssemos também a maior dívida. Mas a verdade é que o Brasil deve 24% do seu Produto Nacional Bruto (PNB), enquanto 85 dos demais países do Terceiro Mundo devem mais e a Índia está endividada exatamente na mesma proporção. Alguns devem muito mais do que seu PNB-- é o que acontece com o Congo (215%), ou da Jordânia (181%). O campeão da lista é Moçambique, cuja dívida externa é de 427% de seu PNB. Apenas quatro nações em desenvolvimento devem menos que o Brasil: Botswana (23%), Vanuatu (19%), Coréia do Sul (16%) e China (11%) (O Globo).