A DESTRUIÇÃO DA AMAZÔNIA PELAS MULTINACIONAIS

Encravada na Floresta Amazônica, no Município de Santana do Araguaia, no sul do Pará, a Companhia Vale do Rio Cristalino destruiu, apenas nos primeiros meses de 1976, cerca de 9.300 hectares de mata nativa, ou 7.444 mil árvores, fazendo em seguida uma gigantesca queimada. Propriedade da Volkswagen do Brasil, a Vale do Rio Cristalino promoveu imensos desmatamentos sem ter requerido vistoria prévia e nem autorização de desmate junto ao extinto IBDF. E todos os danos à maior floresta tropical do planeta cometidos pela multinacional tiveram o respaldo do governo brasileiro, que concedeu em 1974 à Volkswagen Cr$116 milhões de incentivos fiscais através da SUDAM, o que representava 70% dos investimentos totais previstos para o projeto. As multinacionais deram sua parcela de contribuição para a destruição da
46917 Floresta Amazônica, reconhece o ecólogo e pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Philip Fearnside. A Vale do Rio Cristalino-- vendida em 1988 ao grupo Matsubara, do Paraná-- se propunha a implantar um projeto para criar, recriar e engordar até 80 mil cabeças de gado numa área de 139 mil hectares, tendo o direito de desmatar até 50% da área total do projeto. Milhões de dólares em madeira tropical nobre foram consumidos em desmatamentos e queimadas. As multinacionais devastaram na Amazônia porque as autoridades federais
46917 foram cúmplices e omissas, atesta o primeiro presidente do IBAMA, Fernando César Mesquita, atualmente secretário de Meio Ambiente do Maranhão. Para ele, antes da criação do IBAMA as autoridades ambientais permitiram que as multinacionais atuassem na Amazônia sem qualquer fiscalização. Ele revela que, durante sua gestão no IBAMA, autuou a multinacional inglesa British Petroleum, que atuava irregularmente dentro da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. Na mineração, na indústria madeireira, na prospecção petrolífera e, também e principalmente, na agropecuária, as multinacionais tiveram e ainda têm um papel preponderante nos grandes desastres ambientais causados à maior floresta tropical do planeta. Há exemplos históricos como a atuação da transnacional norte-americana Bethlem Steel que, associada ao grupo nacional Caemi, foi responsável pela implantação do maior projeto de exploração mineral do Estado do Amapá: a produção de manganês da Serra do Navio. O minério extraído, em sua maior parte, foi exportado na forma bruta. No Amapá ficaram alguns investimentos em infra-estrutura e um imenso buraco. O norte-americano Daniel Ludwig implantou em plena selva, entre Pará e Amapá, com investimentos de US$750 milhões, o imenso Projeto Jari, hoje nacionalizado. Mais de 100 mil hectares de floresta nativa foram abatidos para o plantio de gmelina e eucalipto, utilizados na Companhia Florestal Monte Dourado na produção de celulose. Em abril passado, o IBAMA brecou uma autorização pedida pelo Jari para desmatar outros cinco mil hectares, cuja madeira seria utilizada como fonte energética. As multinacionais do alumínio também provocaram os maiores desastres ecológicos da Amazônia na exploração de bauxita. Junto com a CVRD (Companhia Vale do Rio Doce), gigantes do porte da Alcan, Billington, Reynolds e Norsk Hidro provocaram a destruição de 400 hectares do Lago Batata, no Município de Oriximiná (PA), por assoreamento. No Mato Grosso, a multinacional italiana ENI-AGIP Petroli, sétima do "ranking" mundial na produção petroquímica, adquiriu em São Félix do Araguaia a Agropecuária Suia-Missú, com 490 mil hectares, onde foi instalada uma imensa fazenda de gado com a destruição de 80 mil hectares de floresta nativa para a abertura de pastos. O potencial mineral da Amazônia brasileira está estimado em cerca de US$1,6 trilhão. Além da província mineral de Carajás, onde se destacam as jazidas de 18 bilhões de toneladas de minério de ferro, encontra-se também cobre, níquel, manganês, zinco, ouro, nióbio, titânio, bauxita cassiterita, fosfato, caulim, entre outros minérios. Esse potencial despertou o interesse das principais multinacionais do setor mineral. Gigantes como a British Petroleum, Rio Tinto Zinc, Brascan, U.S.Steel e Anglo American se fixaram na Amazônia e, em determinado momento, passaram a ter em seu poder áreas superiores à da França e Itália, juntos. Somente no Pará, as multinacionais chegaram a deter em seu poder uma área de 105 mil km2, segundo que deste total, apenas a British e a Brascan detinham 57 mil km2. Em Rondônia, a BP/Brascan e o grupo Anglo American, da África do Sul, dominaram uma área de 3,2 milhões de hectares. As multinacionais controlavam 402 mil km2 na Amazônia. Apenas a BP, a Brascan e a Anglo eram donas de 61% do total das áreas controladas por estrangeiros, ou seja, uma superfície equivalente a 12 Projetos Jari. Essas multinacionais, porém, pouco investiram em projetos econômicos. A Alcoa, por exemplo, adquiriu uma jazida de 300 milhões de toneladas de bauxita de Daniel Ludwig, próxima ao rio Trombetas, no Pará, mas nunca investiu um dólar sequer na exploração racional da jazida (JB).