Uma política agrícola não pode ser pensada sem uma política de renda.
46898 De nada adianta produzir mais ou promover supersafras se o governo não
46898 consegue resolver o problema de renda do povo brasileiro. Sinto-me
46898 pessimista, porque existe um estado de desnutrição latente, e o governo
46898 Collor, além de promover os mais graves arrochos e recessão da História,
46898 está deixando de intervir no mercado o que significa um golpe contra o
46898 setor agrícola. A afirmação é do pesquisador e economista do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), Francisco Menezes. Na sua avaliação, o aumento da produção agrícola-- sem levar a cabo igual programa de distribuição de rendas e consequentemente aumento da demanda interna-- provocará a quebra de produtos rurais de menor porte, pois os preços cairiam e não cobririam sequer os custos de produção. O pesquisador denuncia a linha de ação federal, cujo objetivo, garante, é promover a sua retirada do setor agrícola, tentando fazer com que o mercado se regule por si mesmo. A intervenção do Estado via política de preços mínimos e de créditos é necessária, na análise de Francisco Menezes, para que os pequenos e médios produtores não sejam prejudicados. Quando se concede liberdade em um quadro de desigualdades, fortalece-se os
46898 mais fortes e torna extremas as diferenças. A intervenção efetiva é
46898 necessária porque, ao contrário da atividade industrial, a produção
46898 agrícola está sujeita a intempéries, variedades e influências
46898 impossíveis de serem previstas, argumenta. A agricultura carece de um tratamento diferenciado, principalmente porque está ligada à segurança alimentar do brasileira, salienta o pesquisador, para quem o governo federal, em seu programa neo-liberal, sempre teve a intenção de retirar a sua ingerência do setor. A destinação de Cr$400 bilhões, anunciada pelo governo à área agrícola, é quantia muito pouco significativa, no entender do economista, que comparou aos cerca de US$18 bilhões de créditos mobilizados no início da década de 80. Entre as últimas medidas adotadas pelo governo Collor, Menezes assinala que o presidente da República adiou a cobrança das dívidas contraídas pelo crédito de custeio. Em contrapartida, deixou de emprestar recursos para a comercialização da safra. "Existem duas linhas de financiamento: o custeio da safra, e o da colheita para comercialização. A primeira visa a aquisição de sementes e de insumos; a outra, a colheita de venda. Esta atitude mostra o golpe que quer dar no setor", denuncia. O pesquisador do IBASE afirmou ainda que "o ministro da Agricultura, Antônio Cabrera, disse que até o fim do governo o Brasil estará produzindo 100 milhões de toneladas de grãos. Isto vale como uma boa propaganda, mas não é um tratamento sério. Mais do que discutir sobre produção, há que se pensar se o brasileiro tem condições de adquirir alimentos", enfatiza. A fome do povo brasileiro não é resultado da falta de potencial de produção, garante, comparando a queda do salário-mínimo de 1959, que era superior a US$700 (o equivalente a Cr$1,66 milhão), enquanto hoje não ultrapassa os US$85 (Cr$230 mil) (JC).