BANCOS BUSCAM SÓCIOS ESTRANGEIROS

Virou moda entre os banqueiros brasileiros fazer acordos com bancos estrangeiros dividindo negócios que movimentam bilhões de dólares no financiamento do comércio exterior, operações em Bolsa de Valores e lançamento de títulos no exterior. São dezenas de instituições correndo atrás de uma polpuda fatia de mercado: só no comércio exterior, o Brasil deverá movimentar US$55 bilhões este ano, mais US$3 bilhões que em 1991. Além disso, os investidores externos trouxeram para as Bolsas brasileiras US$754,9 milhões só no primeiro trimestre deste ano, já descontadas as retiradas. Este volume é bem superior ao ingresso líquido de US$750 milhões dos fundos em todo o ano passado, como mostram os dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os investimentos registrados e autorizados pelo governo, no ano passado, chegaram a US$11,6 bilhões através da emissão de bônus de companhias brasileiras, "commercial papers", financiamentos às exportações, investimentos diretos em empresas e empréstimos em geral, de acordo com o Banco Central. Só no período janeiro/abril deste ano, o montante já chegou a US$4,6 bilhões. Só em bônus de companhias brasileiras emitidos no exterior (a grande maioria, bancos) o valor chega a US$1,097 bilhão em apenas quatro meses. Em todo o ano passado, apenas com a venda de bônus no exterior, o país obteve US$1,507 bilhão. A abertura da economia brasileira está sendo decisiva para a nova estratégia de atuação dos bancos. Além do crescimento dos negócios com a Europa, EUA e Oriente, o MERCOSUL-- associação entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai-- está sendo fundamental para agilizar o mercado financeiro. Os bancos estão de olho num mercado de US$7,5 bilhões, que deverão ser movimentados este ano só no comércio exterior entre os quatro países, informa o vice-presidente para comércio exterior do Banco Nacional, José Carlos Pessanha. No ano passado, o MERCOSUL movimentou US$5,9 bilhões em exportações e importações. Os banqueiros que estão fazendo parcerias com estrangeiros aplaudem o regime de liberdade cambial do ministro Marcílio e da equipe do Banco Central. No entanto, poucos, como o ex-presidente do Banco Central Antonio Carlos Lemgruber sugeriram publicamente que o governo adotasse a unificação das taxas de câmbio e determinasse a conversibilidade total do cruzeiro. Idéias que poderiam ser resumidas por "dolarização", diriam alguns. Esta "dolarização" faria a inflação cair mais rapidamente abaixo de dois dígitos, defende Lemgruber que, como diretor do banco Liberal, está negociando acordos com bancos no exterior. Independentemente do que decidir o governo quanto à dolarização. Os principais acordos existentes entre instituições financeiras brasileiras e estrangeiras são: Unibanco-- no fim do ano passado, firmou convênio com o Morgan Stanley, um dos maiores bancos de Wall Street (Nova Iorque). Juntos, estão de olho num grande projeto de privatização, explica o vice-presidente do Unibanco, Tomas Zinner. Em setembro de 1991, o Unibanco fez convênio de cooperação com o banco Roberts (Argentina), o Bice (Chile) e o Surinvest (Uruguai). O Roberts, o Bice e o Unibanco têm, cada um, 15% do banco Surinvest, uma instituição com patrimônio de US$12 milhões. Na última semana, o Banco Unión, maior banco paraguaio de capital nacional, engrossou esta sociedade. Os outros 55% da composição do Surinvest pertencem ao Radobank (Holanda) e ao IFC. Há 15 anos, o Unibanco está associado ao japonês Dai-Ichi Kangyo Bank (DKB)-- maior banco do mundo com ativos superiores a US$400 bilhões--, o Commerzbank (Alemanha) e o Bank of America (antes Securities Pacific). Juntos, os três têm 25% do Unibanco, hoje com um patrimônio de US$500 milhões. Pactual-- não fez acordos, mas tem trabalhado com parceiros estrangeiros. Não fazer acordo é uma estratégia. Assim, temos liberdade para escolher
46893 parceiros de acordo com cada negócio, explica o diretor do banco, Luis Cesar Fernandes. O Pactual já emitiu US$40 milhões em bônus e mais US$10 milhões em "commercial papers" lançados no exterior. Administrando US$1 bilhão em fundos estrangeiros, já participou da emissão de quase US$400 milhões em títulos de companhias brasileiras no exterior. Está lançando um novo fundo de papéis brasileiros-- o Eternity-- em parceria com o Crédit Suisse First Boston. Segundo Fernandes, o banco participará, em fins de setembro, da emissão de títulos da TELEBRÁS no mercado americano junto com a corretora Nomura (Japão) e um banco inglês. Itaú-- A investida do banco no mercado externo está se concentrando em suas próprias agências. O diretor da área internacional, Alberto Barreto, lembra que as agências de Buenos Aires e Nova Iorque estão trabalhando como nunca. Tem uma subsidiária em Portugal, a Itausa- Portugal. Por enquanto, não tem parcerias, mas movimentou US$3,5 bilhões só em comércio exterior em 1991. Boavista-- desde o segundo semestre de 1991, tem acordo operacional com o banco Quilmes, da Argentina para operação no MERCOSUL. O vice-presidente do Boavista, Lineu de Paula Machado, afirma que está sendo procurado por três bancos americanos, um suíço, um chileno e um venezuelano para negócios de comércio exterior. Bradesco-- em 1991, fez acordo com a Salomon Brothers para atuar no mercado de capitais. Em 1993, completa 20 anos de associação com o Sanwa Bank (Japão), que detém 10% do Bradesco Investimento, que tem um patrimônio líquido de Cr$450 bilhões. Outros quatro bancos europeus têm participação no Bradesco Investimento: Deustche Bank (Alemanha), Amro-Bank (Holanda), Société Générale (França) e Creditanstalt (Áustria). Juntos, eles têm 5% do capital do Bradesco. Nacional-- no ano passado, o banco firmou acordo com o banco Francês Del Rio de la Plata, de Buenos Aires para, juntamente com o Interbanco (que é do Nacional), no Paraguai, atuar no MERCOSUL. O Nacional deverá aumentar, este ano, de 3,8% para 5% a participação nos negócios do MERCOSUL, que deverá chegar a US$7,5 bilhões este ano, informa José Carlos Pessanha, vice-presidente para comércio exterior. Tem trabalhado com 10 bancos estrangeiros e 30 bancos correspondentes no exterior. Já participou de emissão de eurobônus de diversas empresas como a PETROBRÁS, Ripasa, BNDES e do próprio Nacional. Na última terça-feira (12), o Nacional emitiu no mercado londrino US$100 milhões em bônus numa operação coordenada pelo Citicorp. A instituição quer participar também da emissão de ADRs da Aracruz este ano (estimada em US$200 milhões) e quer aumentar de 4% para até 8% a sua participação no comércio brasileiro. Garantia-- tem uma associação com o Latin American Securities (do Foreign and Colonial Investment). Na semana passada, os dois juntos colocaram em operação o primeiro fundo de investimento em companhias brasileiras com cotação na Bolsa de Londres. O fundo chama-se Brazilian Investment Trust, e já captou US$62,5 milhões (O Globo).