O ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, disse ontem que a economia crescerá uns 2% ou 3% este ano, defendeu a privatização mais rápida e mais ampla e reconheceu que o governo pode fazer mais pelo povo com o dinheiro que já recebe. Ele falou ontem na abertura do segundo dia-- destinado aos temas econômicos-- do Seminário de Articulação de Ações do Governo, no Palácio do Planalto. Comparou o momento atual ao que o escritor Guimarães Rosa chamou de a "virada dos ventos". Apesar dos sinais de reação, o país ainda está em recessão, segundo Marcílio, e a inflação "ainda (é) alta, mas cedente". A inflação cairia mais rapidamente com um choque fiscal, disse depois o secretário especial de Política Econômica, Roberto Macedo, mas não há, acrescentou, "condições institucionais nem políticas para fazer isso". O ajuste fiscal, isistiu Macedo, envolve a colaboração indispensável dos três poderes. Marcílio chamou a política fiscal de "espinha dorsal da política econômica" e disse que não basta arrecadar bem e gastar só o arrecadado. Apesar de todos os problemas que temos, ainda arrecadamos quantias
46891 significativas, afirmou. Bem utilizadas, servirão para garantir à população "serviços razoáveis". O secretário nacional de Planejamento, Pedro Pullen Parente, retomou a questão de como gastar, criticando a pulverização e o desperdício dos recursos do orçamento. O ministro retomou a definição criada na véspera pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Antônio Luís Veneu, e chamou sua pasta de ministério da defesa da saúde fiscal do país. Marcílio começou por um balanço da política de combate à inflação. A liberação de preços, disse, criou condições de previsibilidade e de maior eficiência nas decisões econômicas. A política monetária, segundo ele, restituiu ao governo a confiança do público. Para isso contribuiu, de acordo com o ministro, a devolução dos cruzados novos (quase US$20 bilhões até agora, explicou). "É a primeira vez que se devolve um dinheiro compulsoriamente bloqueado". A restauração do crédito público se reflete na aceitação, pelo mercado financeiro, de títulos federais com prazos de resgate de até 15 meses. Marcílio rejeitou a hipótese de usar "âncoras" para garantir a estabilidade da economia e disse que pouco antes conversara sobre isso com o secretário de Ciência e Tecnologia, Hélio Jaguaribe. "Eu tenho dito que não se jogam âncoras em alto-mar", explicou. Marcílio não especificou como seria "ancorada" a economia, mas o exemplo mais comum seria a dolarização, no estilo argentino, com fixação do câmbio. Ao tratar da questão fiscal, disse que "é extremamente importante acelerar e alargar o programa de privatização". Além disso, estimulou todos os ministros a participar mais ativamente do programa comandado pelo presidente do BNDES, Eduardo Modiano. As relações internacionais foram examinadas de dois ângulos, o comercial e o financeiro. Do lado financeiro, destacou a abertura do mercado de capitais, que permitiu neste ano, até março, o ingresso de US$750 milhões. Durante todo o ano passado entraram US$750 milhões. Com esse movimento, a capitalização das Bolsas de Valores saltou de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) para 17%. Graças a isso, empresas brasileiras lançaram ações novas no valor de US$600 milhões. Esse movimento foi estimulado também por uma política cambial coerente, segundo o ministro. "Resistimos à tentação de usar o câmbio para fins antiinflacionários", comentou, lembrando que as regras estáveis para o câmbio permitiram duplicar as reservas em 6 meses. Do lado comercial, o ministro ressaltou a abertura do mercado, as negociações para formação do MERCOSUL e os entendimentos com o governo dos EUA, no âmbito da Iniciativa para as Américas. Mas ressalvou que o mais importante é "o aspecto multilateral", dependente da revisão do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) (O ESP).