BIRD DIVULGA NOVO RELATÓRIO SOBRE DESENVOLVIMENTO

Os mecanismos de livre mercado, tradicionalmente apregoados pelo BIRD (Banco Mundial) como o caminho mais curto para a prosperidade econômica, não servem para proteger o meio ambiente, segundo proclama o Relatório Mundial de Desenvolvimento de 1992, o 15o. de uma série e o terceiro de uma série iniciada em 1990 com relatório sobre a pobreza, e outro sobre estratégias de desenvolvimento, em 1991. "O mundo aprendeu nas duas últimas décadas a se valer mais dos mecanismos de mercado e menos dos governos para promover o desenvolvimento", informa o relatório. "Mas a proteção do meio ambiente é uma área em que o governo precisa manter um papel forte". O mercado, de acordo com o documento, prevê significante ou nenhum incentivo à redução da poluição. A contaminação do ar nos grandes centros, a disposição de resíduos perigosos perto dos cursos de água ou o uso irregular da terra são problemas típicos que exigem ação pública, segundo o BIRD. A persistência da pobreza nos países menos desenvolvidos é tema corrente do relatório. Tratamento de esgotos deficientes, contaminação da água destinada ao abastecimento da população, degradação do solo ameaçam muito mais diretamente a vida do que os problemas mais característicos dos países ricos, como as emissões de gases ou causadores do efeito estufa e do aquecimento global da Terra e a degradação da camada de ozônio que recobre a Terra. As fortes evidências das ligações entre pobreza e poluição, de acordo com o relatório, indicam que o caminho para resolver os problemas ambientais começa com medidas destinadas a combater a pobreza e a reduzir o aumento populacional. De acordo com o relatório, mais de dois milhões de mortes e bilhões de casos de doenças são atribuídos, todos os anos, à poluição das águas, um problema que conduz à redução da produção pesqueira, à contaminação dos recursos hídricos e a restrições às atividades econômicas, devido à escassez de água. Da mesma forma, o desmatamento que promove enchentes, mortes e doenças também provoca a perda do potencial da exploração sustentável da madeira, a redução da capacidade de as florestas sequestrarem carbono e evitarem a erosão. Segundo o documento, um bilhão de pessoas em países pobres não dispõem de água limpa e 1,7 bilhão não têm condições mínimas de saneamento básico. Investimentos no setor permitiriam que se evitasse a morte de dois milhões de crianças, entre os três milhões que morrem todos os anos de diarréia. Ainda segundo o relatório do BIRD, os países pobres terão de investir US$75 bilhões anuais, se quiserem atingir um desenvolvimento ecologicamente sustentável até o final do século. Para chegar a tal cifra, o Banco Mundial alinha investimentos que vão de obras que levem saneamento e água potável a dois bilhões de pessoas a projetos para reduzir em 90% as emissões de poluentes dos veículos. O BIRD propõe que o investimento anual de US$75 bilhões seja rateado entre diversos projetos. Esses recursos também permitirão estabilizar, a longo prazo, a população mundial de 10 bilhões de pessoas, ante os 12,5 bilhões previstos. Os investimentos também promoveriam a educação das mulheres em níveis primário e secundário, as pesquisas agrícolas, a conservação do solo e a redução da produção de efluentes e resíduos industriais. Diversas experiências e problemas existentes no Brasil são apresentados no relatório do BIRD. O documento mostra exemplos a serem seguidos de projetos brasileiros, como é o caso do Programa de Recuperação Ambiental de Cubatão (SP), ou o sistema condominal de esgotos desenvolvido no Recife (PE), e revela também experiênias que se tornaram pouco gratificantes, caso do Polonoroeste-- projeto de colonização em Rondônia financiado pelo BIRD a partir do início dos anos 80, e que, na prática, mostrou as drásticas consequências de programas que ignoram aspectos ambientais. No último capítulo de seu relatório, o BIRD destaca o projeto de cooperação internacional para proteção da Amazônia, conhecido como Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais. O programa conta com o apoio financeiro do G-7, o grupo de países mais industrializados. Ainda de acordo com o relatório, o Brasil foi promovido de categoria pelo Banco Mundial. No documento, o país, com uma renda per capita de US$2.160 (1988), era classificado entre os países de renda média baixa ("lower- middle-income"). No relatório deste ano, com uma renda per capita estimada em US$2.680 (1990), o Brasil passou a integrar a categoria de países com renda média alta ("upper-middle-income"). O inverso ocorreu com a Argentina, rebaixada em função da queda de sua renda per capita de US$2.520 (1988) para US$2.370 (1990). Pelos números do BIRD, o Brasil, em 1990, era o país com renda per capita mais elevada da América Latina, vindo em segundo lugar a Venezuela e o Uruguai, ambos com US$2.560. O México classificava-se em terceiro (US$2.490). A expectativa de vida também melhorou: de 65 anos para 66 anos. A taxa de analfabetismo entre adultos registrou também algum progresso. É de 19%, em comparação com 22% pela estatística precedente. Os números são favoráveis também quanto ao crescimento demográfico. Estima o BIRD que o aumento de população, que, no período 1980-1990, deu-se à taxa de 2,2% ao ano, caia para 1,7% ao ano entre 1989 e 2000. A população nacional, que era de 150 milhões em 1990, passará a 178 milhões no ano 2000 e chegará a 237 milhões em 2025 (GM).