DESNUTRIÇÃO ATINGE 15% DAS CRIANÇAS BRASILEIRAS

A desnutrição crônica atinge 15% das crianças brasileiras, o que coloca o Brasil entre os recordistas de mortalidade infantil-- com 60 óbitos em cada mil nascimentos-- e ao lado de países africanos cuja renda per capita corresponde a menos de um terço das nossas riquezas. No nordeste, a mortalidade infantil chega a 106 óbitos por mil. Alagoas é o Estado recordista em pobreza, desnutrição e falta de saneamento. Os dados constam do estudo Perfil Estatístico de Crianças e Mães do Brasil, apresentado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE), baseado num período de análise de 15 anos: de 74 a 89. Segundo o técnico do IBGE Celso Simões, o recrusdecimento da recessão nos últimos dois anos pode ter agravado ainda mais a situação, devido à suspensão ou ao corte de investimentos importantes. O levantamento concluiu que 7% da população infantil (1,2 milhão de crianças) são desnutridos e entre esses havia 830 mil crianças com desnutrição moderada e grave, que pode levar à morte. Apesar de ocorrido uma melhoria nas condições de saúde das crianças brasileiras entre 74 e 89, os técnicos constataram que apenas transformações radicais na distribuição de riqueza e na atuação do governo no norte e nordeste poderão reverter esse quadro. "O governo deveria reorientar suas políticas, dando prioridade ao programas de atendimento pré-natal e pré-escolar", disse Mário Monteiro, do IBGE. A desnutrição infantil teve uma redução de 60% nos últimos 15 anos, melhoria sentida com mais impacto nas regiões sul (78,6%), sudeste (69,4%) e centro-oeste (69,2%). O norte (56,7%) e o nordeste (52,6%) tiveram os mais baixos porcentuais de recuperação. Um fator que contribuiu para a redução da mortalidade foi a queda da fertilidade feminina, devido a programas contraceptivos sem acompanhamento. A gravidez de adolescentes, no entanto, é um dos fatores que ajuda a elevar o número de óbitos: desnutrida, a menina não amamenta o filho ou não tem leite com teor alimentício suficiente. De acordo com o representante da UNICEF no estudo, Agop Kayayan, nos tempos de crise os investimentos para melhoria das condições de vida da criança e da mulher devem ser feitos nas áreas mais carentes. "Há países mais pobres, como Sri Lanka (antigo Ceilão) e Costa Rica, com índice de mortalidade muito menor", comparou. No nordeste do Brasil, onde desvios na aplicação de recursos para saúde e saneamento seriam comuns, a situação piora. "Lá, as verbas sequer chegam aos destinatários", disse Mário Monteiro. Alagoas é apontado como um dos líderes no desvio de verbas públicas. O Ceará é um dos modelos de como a situação pode ser revertida, com a adoção de políticas que dão prioridade às áreas mais carentes: no início da década de 80 o índice de mortalidade infantil era o mais alto do país, com 120 mil óbitos por mil nascimentos; hoje, o Estado está abaixo da média nacional, com 50 casos por mil, informou Monteiro. A desnutrição começa cedo, com aleitamento da criança por uma mãe também mal alimentada. Aos 14 anos, o adolescente brasileiro tem 12 centímetros a menos que os meninos norte-americanos, destacou Marília Leão, coordenadora de pesquisa do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), que participou da pesquisa. O peso também é um agravante para o nanismo: 10% das crianças brasileiras nascem com peso baixo (O ESP) (JB) (O Globo).