INTERROGADOR DE HERZOG ROMPE SILÊNCIO

O homem que interrogou o jornalista Wladimir Herzog no Destacamento de Operações de Informações-- Centro de Operações de Defesa Interna (DOI- CODI), na manhã de 25 de outubro de 1975, acaba de quebrar silêncio de 16 anos. Em entrevista à revista IstoÉ/Senhor, Pedro Antônio Mira Grancieri, 55 anos, conhecido como "Capitão Ramiro", assume publicamente pela primeira vez que foi o homem encarregado pelo DOI-CODI para arrancar confissões do prisioneiro. "Fui o único que interrogou Wladimir Herzog no DOI-CODI, fui o único a conversar com ele naquele dia. Ninguém está mais forte e diretamente envolvido na morte de Herzog do que eu", admitiu Grancieri. As últimas três horas da vida de Herzog, 38 anos, pai de dois filhos e diretor de telejornalismo da TV Cultura, foram passadas ao lado de um homem que se vangloria de excelência de seus métodos de coerção. "Já escrevi apostilas sobre técnicas de interrogatório que foram distribuídas entre meus colegas", contou Grancieri. Disse à IstoÉ/Senhor ter sido "um dos melhores, mas melhores mesmo, interrogadores do DOI-CODI". O jornalista Rodolfo Konder, que chegou às dependências do DOI-CODI um dia antes de Herzog, reconheceu Grancieri como o interrogador alto e magro, marcado por uma tatuagem em forma de âncora no antebraço esquerdo. Outro jornalista que também estava preso no DOI-CODI, George Duque Estrada, confirmou Grancieri como o homem que torturou Herzog. "Eu não poderia esquecer esse rosto", declarou Estrada aos repórteres da revista. O dono da tatuagem, que segundo a IstoÉ/Senhor manteve os braços cruzados durante toda a entrevista, como se quisesse esconder o desenho que foi a sua marca registrada entre os presos, não admitiu em momento algum reponsabilidade pela morte de Wladimir. "Ele se enforcou quando foi deixado sozinho na sala, porque ficou com medo de perder o emprego", disse Grancieri. "A Cultura é estatal e Wladimir sabia sabia que seria demitido porque ficaria público que ele era do PCB". A teoria do interrogador foi rebatida pela mulher de Herzog, Clarice. Isto é um absurdo", sentenciou. Ela declarou à revista que o marido vivia uma das melhores fases de sua vida e cultivava planos de deixar a emissora de TV pata voltar a se dedicar ao cinema. Os últimos momentos de Herzog foram ouvidos por Konder. "No dia 25 de outubro, quando "Ramiro" ficou sozinho com Vlado, eu ouvi os gritos de Herzog, gritos que já ouvira, de quem está recebendo choques elétricos", descreveu o jornalista à reportagem de IstoÉ/Senhor. Segundo Konder, a partir de determinado momento a voz de Herzog foi modificada, como se algum objeto em sua boca atrapalhasse a dicção. Depois nada mais ouvido. "Foi uma morte silenciosa, definiu Konder. Grancieri diz com visível orgulho ser "especialista em asfixia por ação mecânica". "Capitão Ramiro" explicou a IstoÉ/Senhor que para se enforcar não é preciso amarrar a corda a um ponto mais alto do que aquele em que o suicida se encontra. A foto-documento da morte de Herzog mostra o jornalista enforcado, com as pernas dobradas, numa inequívoca prova de que a distância entre o chão e o local onde o cinto que usava foi amarrado era menor que a altura de Vlado. Contraditório, Grancieri tece elogios a Herzog. "Ele era inteligente, bem e educado e não tinha muito a dizer." Depois arremata: "Faria tudo de novo" (O ESP) (revista IstoÉ/Senhor no.1173).