EUTANÁSIA PASSIVA GERA DISCUSSÃO

No Brasil, não há médicos que admitam ser partidários da eutanásia, na linha do norte-americano Jack Kevorkian, o inventor da "máquina do suicídio", preso por ajudar pacientes terminais a abreviarem suas vidas. Mesmo que alguém concordasse com esse tipo de auxílio, não poderia ir adiante, sob risco de acusação de homicídio, segundo as leis do país. No entanto, aumenta o número de médicos que admitem se defrontar em suas rotinas com a questão da eutanásia passiva, caracterizada pela interrupção de tratamentos ineficazes em pacientes terminais, ou desligamento de máquinas de respiração artificial. A questão, que infla na medida dos avanços científicos que permitem prolongar a vida, tem sido acompanhada com atenção pelos encarregados da vigilância da ética. Em São Paulo, o presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina), Roberto Godoy, reconhece que no trabalho das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e com pessoas vitimadas pela AIDS e pelo câncer o dilema é frequente. Recentemente, o sociólogo Herbert de Souza, presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) e diretor-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), portador do vírus da AIDS, comentou que não pretende enfrentar todo tipo de sofrimento que a síndrome vier a lhe provocar. Revelou ter feito um pacto com seu médico para não prolongar tratamentos quando sua qualidade de vida estiver comprometida. "Quero viver enquanto a vida tiver sentido, sem me transformar num poço de sofrimento", diz. Para Herbert de Souza, o direito de escolher como viver ou morrer faz parte do direito à cidadania. Pela primeira vez em São Paulo um médico estará sendo julgado em um Tribunal do Júri, asusado de ter provocado a morte de uma paciente. O médico José de Freitas Montemor, 60 anos, será julgado, a partir de amanhã, na cidade de Atibaia, acusado da morte de Maria José Ramos Pereira, ocorrida em 1982. A empregada doméstica Maria José, então com 28 anos, morreu no dia 21 de agosto de 82. Montemor teria retirado o aparelho de respiração artificial que a mantinha viva (O ESP) (FSP).