MENORES USAM "CRACK" EM SÃO PAULO

Crianças de nove a 14 anos dependentes de "crack" se reúnem em barracos de favela na região de São Mateus (zona leste de São Paulo-- capital) para fumar a droga. Consomem de 20 a 50 papelotes por noite, cada um. Gastam de Cr$200 mil a Cr$500 mil em sessões de "descabelamento". Furtam e roubam para pagar a droga. "Descabelar", na gíria, é "perder o controle, fumar até o corpo suportar". Meninos de rua de São Mateus chegam a fumar durante três dias deitados em barracos, ininterruptamente, sem beber e comer. D. 16 anos, saiu de casa há um mês para viver com traficantes. Ele fuma e rouba. Segundo a família, traficantes mandaram avisar que quem insistir em levá-lo de volta "será recebido à bala". A droga é traficada em portas de escolas, padarias, lanchonetes e fliperamas do bairro. Jovens de bairros centrais, com carros e motocicletas, aparecem à procura da droga todas as noites na avenida Mateo Bei, centro de São Mateus. O "crack" é repassado pelas crianças. Já prendemos traficantes que guardam pedras de crack em muros de escola, revela o delegado Dejair Rodrigues, da Divisão de Investigação do Departamento de Narcóticos (Demarc) da Polícia Civil. O Denarc não havia registrado até 1990 nenhum caso sequer de flagrante de "crack". Em 91, houve três. "Os flagrantes ainda não refletem o que acontece porque os viciados não fazem denúncias", justifica o delegado Luiz Carlos Magno. O uso do "crack" difundiu-se em bairros da zona leste como Itaquera, Artur Alvim e São Mateus. Atingiu o ABC e, na sequência, o Jabaquara, zona sul. Espalhou-se ainda por regiões de Santo Amaro e centro de São Paulo, segundo a Polícia (FSP).