O general Octávio Aguiar de Medeiros, ministro-chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) no governo de João Figueiredo (1979-85) e agora aposentado, ao ser indagado em Brasília, no último dia 8, sobre o sonho de um golpe militar nos idos de 1983-84, respondeu: Isso pertence ao passado". Uma semana antes, o comandante militar do Planalto daqueles tempos, general Newton Cruz, diante de uma pergunta sobre o golpe, rebateu: Isso é fantasia e leviandade. Como é que eu, comandante militar do
44673 Planalto, não saberia da articulação para um golpe? Hoje já se tem provas de articulação para um golpe, ou "virada de mesa" como preferiu dizer o então ministro do Exército, Walter Pires-- houve de fato, e nela estavam envolvidos tanto Medeiros quanto Cruz. A habilidade política de Tancredo Neves, candidato da Aliança Democrática no Colégio Eleitoral, evitou o retrocesso. Em busca da conciliação e não do esmagamento do regime que desmoronava, Tancredo, municiado de informações sobre a resistência militar-- primeiro contra as "diretas já" e, em seguida, contra sua prevista vitória na eleição indireta--, construiu um staff militar informal e, ao longo do segundo semestre de 1984, desmontou a articulação de um golpe que tinha até data marcada. Disse-me o general Edmundo terem os generais acima (Reynaldo Mello de
44673 Almeida, Meira Mattos e Octávio Pereira Costa) transmitido que alguma
44673 coisa iria acontecer em Brasília, entre os dias 10 e 20 de novembro. Todo
44673 o movimento do golpe estaria sob violenta pressão. O general Newton Cruz,
44673 com anuência e incentivo do general Medeiros (sic). Tudo coincide com o
44673 que prevíramos, de uma maneira geral, no dia 26 de outubro de 1984. O informe acima é parte de um relatório secreto entregue à revista Istoé/Senhor no último dia 10, por um integrante do Alto Comando de uma das três armas no governo Figueiredo. O militar possui uma cópia dos relatórios de informações, como foram batizados, produzidos à época por graduados militares e repassados ao candidato Tancredo Neves. Em mais de 70 páginas encimadas pelo timbre "Confidencial" está uma radiografia do poder na agonia do regime. Ministros militares, almirantes, generais, brigadeiros, da reserva ou na ativa, construíram em torno de Tancredo uma barragem contra o golpe. O documento confidencial monta a cronologia do golpe e seu esvaziamento: Pelo nosso relatório de 18 set-84 verifica-se a enorme preocupação do
44673 nosso grupo, face à possibilidade de um golpe em eminência (sic). Durante
44673 o dia 26 de outubro de 1984 recebemos inúmeros telefonemas do general
44673 Edmundo Neves. Conseguimos falar com o mesmo na quinta chamada, o que
44673 demonstrava o seu enorme estado de preocupação, em face dos contatos
44673 mantidos no dia anterior com os generais Reynaldo Mello de Almeida, Meira
44673 Mattos e Octávio Pereira Costa. Daí em diante, depois de implicar Medeiros e Newton Cruz na articulação golpista, o relatório revela que também o ex-presidente Ernesto Geisel foi acionado para evitar o sonho do putch militar. ...é o maior amigo do general Reynaldo, que procurasse o ex-presidente
44673 Geisel a fim de que o mesmo fizesse uma declaração pró-legalidade. Dessa
44673 maneira, esvaziar a ação dos golpistas, Medeiros e Newton Cruz (revista Istoé/Senhor no.1164).