MEDEIROS É UM DOS TORTURADORES DENUNCIADOS

O atual comandante militar da Amazônia, general-de-brigada Octávio Aguiar de Medeiros, que foi o ministro-chefe do SNI no governo Figueiredo, é um dos 444 torturadores denunciados por presos políticos em 695 processos examinados pelo Superior Tribunal Militar, no período de abril de 1964 a março de 1979. A relação dos torturadores foi divulgada pela Arquidiocese de São Paulo, que nos últimos seis anos coordenou e executou o projeto Brasil:Nunca Mais, uma investigação sobre a repressão política desencadeada com o golpe militar de 1964, contra 7367 acusados de militância política. Nos 695 processos analisados, envolvendo mais de 1 milhão de páginas de documentos oficiais, 1843 réus apontam os nomes dos seus torturadores. O número de denunciantes é pequeno em relação ao total de presos políticos, que aparecem nos processos (7367). Há referências a 1028 torturadores nos depoimentos dos presos políticos, que foram cotejadas entre si e com informações contidas em outros dois documentos: a carta enviada pelos presos políticos do presídio Romão Gomes, de São Paulo, ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 23 de outubro de 1975; e o relatório entregue pelos preços políticos do Rio de Janeiro ao ministro da Justiça, Petrônio Portela, em abril de 1979. De acordo com o Jornal do Brasil, após esse cruzamento de informações, a lista se reduziu para 444 nomes, dos quais 254 estão identificados pelo nome completo. "Nota-se uma ligeira predominância de policiais civis-- delegados, investigadores, agentes da Polícia Federal, guardas de presídio, escrivães, comissários, médicos e inspetores-- sobre os militares de diversas patentes: 234 contra 210. O general Octávio Medeiros é citado como torturador por Nilo Sérgio Menezes Macedo, que respondeu a dois processos por sua participação no grupo armado Colina (Comando de Libertação Nacional) em Minas Gerais, em 1969. Na época, Medeiros ocupava o posto de coronel e era encarregado do IPM que resultou no processo de no.7369 da 4a. Circunscrição da Justiça Militar em Juiz de Fora (MG). O segundo processo envolvendo Macedo contém denúncia de tortura contra o coronel Ary Pereira de Carvalho, hoje reformado e acusado de envolvimento no assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten. Ary de Carvalho-- que ocupa um cargo oficial na representação brasileira junto à Organização Internacional do Trabalho, na Suíça-- era tenente-coronel em 1969. Ele é apontado como torturador por cinco pessoas diferentes ouvidas em quatro processos. Teria praticado as torturas em repartições da Polícia do Exército no Rio de Janeiro". Conforme o JB, entre os torturadores militares que aparecem na lista, os de patente mais alta na época são o brigadeiro-do-ar Carlos Affonso Dellamora, chefe da CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica) no Rio de Janeiro, em 1971; e o general-de-brigada Antônio Bandeira, comandante da II Brigada de Infantaria em Brasília, em 1972. Abaixo dos dois oficiais generais, estão na lista 8 coronéis, 8 tenente-coronéis, 15 majores-- entre eles Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI de São Paulo em 1973. O torturador citado mais vezes em toda a relação é o ex-delegado do DOPS paulista Sérgio Paranhos Fleury, com 19 referências em processos contra ativistas políticos nos anos de 1968 a 1971. O delegado aposentado Edsel Magnotti-- denunciado seis vezes como torturador-- foi diretor do DOPS paulista, onde trabalhou por todo o período da repressão. Ele foi responsável pela prisão, em 1980, de vários líderes metalúrgicos. Outro acusado, o delegado Ernesto Milton Dias, disse ontem: "apenas cumpri a minha obrigação". Milton Dias é o atual titular da divisão de crimes contra a economia popular do Decon (Departamento de Polícia de Defesa do Consumidor), onde também trabalha outro acusado-- Valter Brasileiro Polim, investigador processado por integrar o Esquadrão da Morte e absolvido. Raul Nogueira de Lima, ex-integrante da OBAN (Operação Bandeirante) e do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), também citado na lista, pertenceu ao DOPS paulista. Hoje, cumpre pena de prisão por homicídio. Outro investigador acusado-- Astorige Correia de Paula e Silva foi condenado por integrar o Esquadrão da Morte e está em liberdade condicional. Seu colega João Carlos Tralli foi exonerado da polícia paulista. O economista Paulo de Tarso Venceslau conheceu o capitão Benoni de Arruda Albernaz no dia 1o. de outubro de 1969, quando foi preso em São Sebastião (SP), e conduzido a São Paulo, onde funcionava a OBAN. Paulo de Tarso lembra-se que foi apresentado à equipe de torturadores chefiada pelo capitão e seviciado pessoalmente pelo oficial. Ele conta que das mãos da equipe de Albernaz passou para as das chefiadas pelos capitães Maurício Lopes Lima e Dalmo Luiz Cirilo (JB).