COLLOR PEDE AO PAPA AJUDA CONTRA MISÉRIA

O presidente Fernando Collor pediu ontem que o papa João Paulo 2o. use sua influência internacional para ajudar os países em desenvolvimento a suprimir as injustiças entre os povos. De acordo com Collor, os problemas brasileiros têm causas externas que fogem à sua capacidade de decisão. Ao ressaltar o trabalho dos sacerdotes no país, afirmou: "Somos o que a Igreja nos fez". As declarações constaram da saudação ao papa no Palácio do Planalto. Collor criticou ainda o "comércio internacional distorcido e limitado pelo protecionismo". Em seu discurso, o papa disse que o momento do Brasil é "delicado" e exige soluções inadiáveis. Depois de enfatizar o caráter pastoral de sua segunda visita ao Brasil, João Paulo 2o. disse que o atendimento à criança é o fundamento primeiro de uma autêntica sociedade democrática e afirmou que a Igreja deve colaborar com o Estado visando o homem e o bem da Pátria. O papa pediu ao presidente Collor que as questões levantadas pela sociedade sejam sempre examinadas à luz dos
42035 critérios de justiça e moralidade cristã, antes dos interesses
42035 particulares. Pela manhã, na missa que rezou em São Luís (MA), João Paulo 2o. condenou a ocupação de terras e fez uma defesa moderada da necessidade de reforma agrária no país. Ele foi buscar nos textos bíblicos condenações àqueles que só almejam a riqueza. Mas as temperou com referências elogiosas à propriedade privada. Segundo ele, "ao Estado cabe a o dever principalíssimo de assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias, pois nem a justiça nem o bem comum consentem danificar alguém nem invadir sua propriedade sob nenhum pretexto". Disse ainda que "cabe também à tutela do Estado assegurar um sistema justo de distribuição de terras, garantindo ao mesmo tempo o direito de que se reconheça tanto a capacidade como o rendimento do próprio trabalho, dentro de condições realisticamente acessíveis". O papa afirmou também que a concentração de terra no país é um "abuso diante de Deus e dos homens". Segundo o papa, há indícios de uma "leve" melhora no panorama fundiário do Brasil. "Mas também é certo que falta muito para que se possa falar em justa distribuição de terra no Brasil", advertiu. João Paulo 2o. defendeu a economia de escala e o incentivo à produção. "Trata-se de distribuir as propriedades insuficientemente cultivadas por aqueles que as podem tornar mais rendosas", afirmou. Entre as 250 mil pessoas que assistiram à cerimônia estavam familiares de sindicalistas e religiosos mortos em conflitos agrários. De acordo com dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), no período de janeiro de 1985 a agosto deste ano ocorreram, no Maranhão, 70 assassinatos e 361 conflitos de terra (O ESP) (FSP) (GM) (JB).