Segundo João Nunes (codinome "Pancho Vila")-- uma das principais autoridades civis na área das divisas dos Estados do Pará, Goías e Maranhão, durante a repressão política na década de 70; hoje advogando em Marabá (PA), na qual é conhecido pelas suas boas relações com fazendeiros envolvidos em assassinatos de posseiros--, na repressão à guerrilha do Araguaia, o Exército tão logo tomasse conhecimento da provável existência de um guerrilleiro ou grupo de guerrilheiros numa determinada área, tratavam de prender os mateiros, castanheiros ou peões, incluindo todas as suas famílias, que habitavam o mesmo lugar. "Esse pessoal conhecia o mato como ninguém. Nós prendíamos toda a família e dizíamos ao mais capaz que só soltaríamos o pai, ou o irmão, ou a mãe, se ele fosse lá buscar o tal de guerrilheiro". "E eles iam mesmo lá buscar, atiçados, também, pela promessa de receber terras. Mas o sucesso final só veio mesmo quando contratamos pistoleiros profissionais, que acompanhavam as patrulhas ou os matreiros"-- prosseguiu Nunes. João Nunes conta ainda que "a única forma de comprovar a morte ou não dos guerrilheiros era mandando cortar as cabeças e a mão direita, que eram trazidas para o major Curió (codinome "Dr. Patrício dos Santos")-- Sebastião Curió, deputado federal pelo PDS/PA, eleito em 1982-- e daí levadas ao coronel Octávio Medeiros" (atual comandante militar da Amazônia). "O Exército pagava 10 mil cruzeiros por cabeça de guerrilheiro e 50 mil por líder de grupo". "Alguns foram presos vivos, e levados para Brasília. Morreram por lá, pois mais tarde recebíamos o comunicado confidencial ou secreto dando parte da sua morte", disse Nunes. De acordo com João Nunes, o meio preferido de obter informações, por parte do Exército, era a aplicação de tortura. Os métodos mais comuns incluíam o choque elétrico e o "pau-de-arara", e, na região, usavam ainda o "forno de sol" ("a vítima era amarrada ao chão em quatro tocos de madeira, e sobre ela se estendia uma folha de zinco. Com o calor do sol, o torturado ia sendo lentamente assado vivo") (JB).