O golpe soviético fracassou ontem à tarde em Moscou, depois de menos de três dias, tornando Boris Yeltsin presidente da Rússia e centro efetivo da resistência, o homem mais poderoso do país. O Soviete Supremo reintegrou formalmente Mikhail Gorbachev como presidente da União Soviética. Gorbachev regressou à noite a Moscou, depois de ter sido mantido preso durante três dias na Criméia, e seu primeiro ato ao reassmir o cargo foi decretar a prisão dos oito membros da junta golpista intitulada Comitê de Emergência. O chefe da KGB demissionário, Vladimir Kryuchkov, está preso e os outros sete também deverão ser presos nas próximas horas. Ainda na Criméia, em comunicado oficial, Gorbachev declarou que já controlava totalmente a situação. Os tanques voltaram aos quartéis e o toque de recolher foi suspenso em Moscou. Também as transmissões de rádio e televisão, proibidas pelo Comitê de Emergência, voltaram ao ar e se tornou sem efeito o decreto que fechou as publicações independentes do país. O povo tomou as ruas em manifestações de apoio a Gorbachev e ao presidente russo Boris Yeltsin. Nas repúblicas do Báltico, os soldados também retornaram às suas bases. O golpe teve 60 horas de vida e causou 15 mortes em toda a União Soviética, segundo Alexander Rutskoi, vice de Yeltsin. O presidente Fernando Collor enviou a Gorbachev uma mensagem elogiando a demonstração de "exemplar coragem e elevado espírito público" do presidente soviético. Disse ainda estar seguro de que, ao retomar o rumo das reformas e da ordem constitucional, o país continuará a "enaltecer os mais nobres ideais de paz, democracia e desenvolvimento comungados por toda a comunidade internacional". O Itamaraty enviou ontem mesmo de volta a Moscou o embaixador Sebastião do Rego Barros, que estava de férias no Brasil. O presidente dos EUA, George Bush, disse que o fracasso do golpe de Estado na União Soviética fortaleceu a democracia naquele país. Bush foi o primeiro líder ocidental a falar com Gorbachev, por telefone. O presidente da França, Fraçois Mitterrand, reconheceu que a falta de ajuda à União Soviética na reunião do Grupo dos Sete foi um fator de peso na crise institucional naquele país. Mas ressalvou: "Sempre fui partidário desta ajuda". O ex-chanceler alemão Eduard Shevardnadze, agradeceu ao governo alemão pelo seu apoio durante os três dias de golpe. "A posição clara alemã a favor da perestroika e de Gorbachev nos ajudou a superar a crise", disse. O chefe do governo alemão, Helmut Kohl, disse que seu país continuará a dar forte apoio à União Soviética, especialmente agora que a resistência ao golpe militar tornou irreversíveis as reformas políticas e econômicas (JC) (GM) (FSP) (O Globo) (JB).