TRÊS DEIXAM A JUNTA NA UNIÃO SOVIÉTICA

O ministro da Defesa soviético, marechal Dmitri Yazov, e o chefe da KGB, Vladimir Kryuchkov, dois dos oito membros da junta que depôs o presidente Mikhail Gorbachev, renunciaram ontem, e um terceiro, o premier Valentin Pavlov, se afastou por motivos de saúde, enquanto cerca de 200 mil pessoas se manifestavam em frente ao Parlamento russo, onde o presidente Boris Yeltsin se mantém entrincheirado, à frente do movimento de resistência passiva aos golpistas. Pelo menos quatro pessoas morreram em Moscou no enfrentamento entre tropas leais ao Comitê que tomou o poder e militantes pró-Yeltsin. Cinco carros blindados foram incendiados pelos militantes. As manifestações tomaram outras cidades soviéticas, inclusive Leningradom onde outras 200 mil pessoas lotaram a praça do Palácio, para prestar apoio ao prefeito reformista, aliado de Yeltsin, Anatoly Sobchak. Não há movimentação importante de tropas desde o golpe militar. Apenas tanques e veículos blindados saíram às ruas na região de Moscou e nos países bálticos. A` noite, o Parlamento da Estônia declarou a independência de sua república do resto da União Soviética. Ainda não há certezas sobre a localização de Gorbachev. Boris Yeltsin exige que o novo governo organize um encontro seu com Gorbachev e que ele seja examinado, em um prazo de três dias. Se ficar provado que está bem de saúde, deve voltar ao poder. O novo governo soviético tomou ontem sua primeira medida econômico- financeira, suspendendo a partir de hoje a venda de moedas conversíveis fortes-- como o dólar-- nos bancos soviéticos. Os ministros das Relações Exteriores da CEE (Comunidade Econômica Européia) suspenderam a ajuda e o crédito ao novo regime soviético. Os ministros exigiram que "a ordem constitucional seja restabelecida imediatamente", como uma condição prévia para qualquer cooperação da CEE de agora em diante. A única ajuda que ficará mantida será de caráter humanitário: US$150 milhões para a compra de alimentos. Assistência técnica e créditos, que permitiriam aos soviéticos começar a modernização da economia, foram cancelados, totalizando cerca de US$1 bilhão. O presidente dos EUA, George Bush, disse que não vai reconhecer o "golpe ilegal" na URSS. Ele mandou um novo embaixador norte-americano a Moscou com ordens de não entregar credenciais ao governo que tomou o poder. O governo de Cuba divulgou ontem, pela primeira vez, um comunicado sobre as recentes mudanças na União Soviética. A nota critica a posição dos países ocidentais quando diz que "a União Soviética é uma potência nuclear e um conflito pode ter graves consequências. Por isso, uma discussão de seus problemas internos é um risco". O governo cubano declara ainda que aceita as explicações das autoridades diplomáticas de Moscou. Em Brasília, o presidente Fernando Collor creditou aos países do Primeiro Mundo uma parcela de responsabilidade na crise institucional que atinge a União Soviética. Na avaliação do presidente, ao mesmo tempo em que os países desenvolvidos reclamam "pelo primado democrático", é necessário, também, "que colaborem positivamente para a diminuição das desigualdades sociais e dos problemas que afligem hoje três quartos da humanidade". A respeito de um possível rompimento de relações com o novo governo soviético, Collor afirmou: "Nós temos que aguardar mais um pouco para fazermos uma avaliação consistente, mais apurada da evolução dos acontecimentos na URSS" (JC) (GM) (FSP) (O Globo).