CRESCE A RESISTÊNCIA AO GOLPE NA URSS

Menos de 24 após a deposição do presidente Mikhail Gorbachev por um golpe de conservadores apoiados pelos militares e pela KGB, começa a crescer a resistência à junta de seis homens, encabeçada pelo vice-presidente Guennady Yanaiev, que assumiu o poder. Algumas unidades do Exército soviético declararam sua lealdade ao líder da República da Rússia, Boris Yeltsin. Este exige que o próprio Gorbachev explique sua queda e conclamou o povo à "desobediência civil" através de uma greve nacional, como repúdio à ilegalidade do golpe. Milhares de simpatizantes de Gorbachev bloquearam ontem a passagem de tanques e veículos blindados em Moscou, enquanto outros tanques tentaram sitiar também o Parlamento russo e ocupavam pontos estratégicos nas repúblicas separatistas do Báltico. Os mineiros da importante bacia carbonífera do Don, na Ucrânia, e dos campos da bacia do Kuz, na Sibéria, aderiram à greve nacional convocada por Yeltsin, enquanto os governos regionais das importantes áreas de carvão, petróleo e gás da Sibéria e dos centros industriais de Kemerovo, Novosibirsk, Irkutsk e Tomsk manifestaram apoio ao apelo de resistência aos novos dirigentes do Kremlin. O presidente dos EUA, George Bush, não reconheceu a autoridade do grupo que tomou o poder na União Soviética, e exigiu que seja restaurado o governo de Mikhail Gorbachev. "Estamos profundamente perturbados pelos acontecimentos das últimas horas na União Soviética e condenamos o recurso inconstitucional da força", afirmou Bush num comunicado oficial. Bush anunciou a suspensão de qualquer ajuda à União Soviética de Yanayev, mas não fez nenhuma menção de suspender os créditos para importação soviética de produtos norte-americanos. O primeiro-ministro britânico, John Major, anunciou a suspensão de um programa de ajuda técnica de US$80 milhões à URSS em represália ao golpe. A Grã-Bretanha irá pedir à Comunidade Européia o cancelamento de um pacote de US$440 milhões em assistência dos países europeus à URSS. O primeiro-ministro canadense, Brian Mulroney, anunciou o congelamento de toda ajuda do país à União Soviética. No que descreveu como "um dia ruim para a democracia", Mulroney afirmou também que não reconhecerá o novo governo soviético. O chanceler alemão, Helmut Kohl, impôs quatro condições para que a Alemanha prossiga com sua volumosa-- cerca de US$7 bilhões, até agora-- ajuda econômica à URSS. Kohl exige o cumprimento de todos os acordos internacionais assinados até agora pela URSS, o respeito aos direitos humanos no país, o prosseguimento da política de desarmamento e a garantia de integridade física de Mikhail Gorbachev. Os presidentes Fernando Collor e Carlos Menem, da Argentina, divulgaram comunicado conjunto em que manifestam "profunda preocupação" com a situação da União Soviética, em decorrência da deposição de Gorbachev. Collor e Menem manifestaram confiança em que os "valores da democracia, da paz e justiça, próprios de nossa época, não se venham a comprometer". A deposição de Gorbachev não foi considerada um "golpe" porque, segundo o ministro das Relações Exteriores, Francisco Rezek, "não é função do governo brasileiro manifestar-se sobre um fato assim com esse grau de profundidade no mesmo dia em que se produziu". O único apoio ao novo regime soviético veio do Iraque e da Líbia, enquanto governos comunistas de linha dura, como China e Vietnã, recusaram-se a fazer comentários. Cuba também não quis se pronunciar sobre o golpe. O novo governo soviético decretou ontem um pacote de 16 medidas de implementação imediata com o objetivo de centralizar o poder. Aumento de salários para "alguns cidadãos" e suspensão das atividades dos partidos políticos e manifestações políticas, como passeatas ou greves, são algumas delas. As resoluções pretendem acabar com a "economia das sombras" (mercado negro) e declara a atividade empresarial Incompatível" com o trabalho regular em organizações estatais soviéticas. O Comitê Estatal poderá congelar, reduzir ou racionalizar os preços de alguns produtos de consumo, alimentos e serviços. O Comitê de Segurança teve suas atribuições transferidas "temporariamente" para o Comitê Estatal, que também controlará os veículos de comunicação de massa. Para isso será criada uma agência especial. Dentro de seis meses, o comitê apresentará um programa de desenvolvimento para os próximos cinco anos. O chefe do Comitê de Emergência, Guenadi Yanayev, afirmou que Mikhail Gorbachev está em "local seguro" na Criméia, onde "descansa de anos de fadiga". Mas a agência russa Ira revelou que o ex-presidente teria sido transferido de avião de uma cidade na Criméia para local desconhecido (JC) (O ESP) (GM) (FSP) (O Globo).