As organizações indígenas de todo o país estão envolvidas num amplo debate cujo foco central é a questão da representatividade dessas mesmas organizações. O debate iniciou-se no dia 15 de abril, quando os participantes da VII Assembléia Indígena do Acre e Sul do Amazonas, membros da UNI-Acre, divulgaram uma "Carta de Esclarecimento", denunciando que a União das Nações Indígenas de São Paulo e seu coordenador, Ailton Krenak, não representam legitimamente os povos indígenas do Brasil. Quatro dias depois, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), que promovia em Manaus o III Encontro de Reflexão e Planejamento dos Povos Indígenas, reunindo 80 líderes e representantes de cerca de 20 povos da Amazônia e do Nordeste, manifestou apoio às posições assumidas pela UNI-Acre, através de uma Carta Denúncia. Na carta, a COIAB repudia as "práticas autoritárias e desagregadoras do movimento indígena realizada pelo Sr. Ailton Krenak" e nega "qualquer legitimidade aos cargos que ele diz ocupar", por não ter delegação indígena para ocupá-los: a direção do Núcleo de Cultura Indígena; o de coordenador nacional da UNI e porta-voz dos povos indígenas do Brasil; e o de "Embaixador dos Povos da Floresta" em São Paulo. A COIAB afirma que Ailton, "a partir do controle de fontes de financiamento e de razoáveis somas em dólares", passou a "realizar pressões e chantagem econômica sobre lideranças e comunidades indígenas". A primeira resposta às posições das organizações indígenas partiu de Júlio Barbosa de Aquino, do Conselho Nacional dos Seringueiros, através de uma carta em inglês inserida no dia 10 de maio pela Rainforest Action Network (RAN) na rede de comunicação AlterNex. Nela, Júlio afirmou que apesar da carta (da COIAB) ter assinaturas de muitos índios, a
39410 responsabilidade real desta é do CIMI-Norte. Acusou a Igreja de pressionar índios a assinar documentos contra outros índios. Júlio afirmou ainda que o assassinato de Chico Mendes ocorreu depois de acusações semelhantes, feitas por "afiliados da Igreja Católica" e que, se alguma coisa de grave vier a acontecer com Ailton Krenak, "a maior responsabilidade será do CIMI". Diante desse quadro, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) resolveu divulgar, no dia 14 de maio, uma nota-- "O CIMI e as Cartas Indígenas"--, esclarecendo a sua posição no episódio. Já no dia 14 de maio, os dirigentes da UNI-Acre divulgaram uma nova "Carta de Esclarecimento à Opinião Pública". Sem levar em consideração a nota do CIMI e a Carta da UNI-Acre, que também foram inseridas no AlterNex, a organização Rainforest Action Network voltou à carga no dia 21 de maio, com um longo documento. Nele, volta-se a acusar o CIMI de manobrar líderes indígenas, através de organizações afiliadas, como se os povos indígenas no Brasil fossem incapazes de pensar por si sós. O documento termina com um apelo para que os amigos da UNI de São Paulo escrevam uma "polida carta" ao presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Luciano Mendes de Almeida, solicitando que ele "questione a posição do CIMI-Norte sobre esta controvérsia". Em resposta antecipada, dom Luciano escreveu uma carta, confirmando os termos da nota do CIMI. Dom Luciano pede para que os interessados em esclarecer as dúvidas em torno do debate em pauta dirijam-se diretamente às organizações indígenas envolvidas (Porantim no.138).