As entidades empresariais do comércio do Rio Grande do Sul, que já haviam pedido o afastamento da equipe econômica do governo numa carta enviada ao presidente Fernando Collor, comemoraram a saída de Zélia Cardoso de Mello do Ministério da Economia. Insensabilidade, autoconfiança exagerada e petulância foram os fatores responsáveis pela demissão", definiu o presidente do Conselho Nacional de Associações Comerciais (Conasc), César Rogério Valente. Fim do congelamento. É essa a tradução que o comércio paulista dá para a troca de ministros no comando da economia. A expectativa é de que, com a entrada de Marcílio Marques Moreira, a política econômica mude de rumo e abandone o controle dos preços como mecanismo de conter a inflação. "Desta vez haverá convergência entre o discurso liberalizante do governo e suas práticas econômicas", disse o presidente da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Lincoln da Cunha. Acabou o isolamento entre governo e empresários, definiu Walter Sacca, diretor da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). "A expectativa agora é de otimismo", disse. O retorno do entendimento nacional como saída para a crise brasileira é a tradução prática da boa vontade com que é recebido o novo ministro da economia. Os empresários definem como primeira peça deste diálogo a certeza de que o tempo dos choques econômicos pertence ao passado. "Choque nunca mais", afirmou o presidente da FIESP, Mário Amato. Para o presidente da ABDIB (Associação Brasileira das Indústrias de Base), Aldo Narcisi, a troca de ministros ocorreu em hora inoportuna. Segundo ele, o mercado de bens de capital sofrerá uma nova paralisação com a mudança de ministros. O auxílio econômico do governo federal para o Rio de Janeiro não deverá sofrer interrupção com a mudança do titular da pasta da Economia. A opinião é do presidente da FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Arthur João Donato, par quem a troca de ministros não afetará as diretrizes da política econômica. "Haverá uma modificação de estilo, mas não de substância", afirmou. Para o diretor-técnico do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômico), Sérgio Mendonça, a mudança de ministro não é o fato mais relevante no momento. O quadro deixado pela ex-ministra é de total instabilidade. Nos 14 meses em que esteve à frente do Ministério da Economia, ficou provado, mais uma vez, que a recessão não é a melhor terapia para combater a inflação em uma sociedade como a nossa, em que não se encaixam modelos ortodoxos, dizem os membros da entidade. Para o presidente da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), Francisco Canindé Pegado, o novo ministro da Economia não mudará as regras do jogo: "será o continuísmo", disse ele. "O atual modelo econômico é concentrador de renda. Até a ministra Zélia, que acreditava nele, está saindo por não mais acreditar", opinou o sindicalista. A manutenção da convocação para a greve geral nos dias 22 e 23 foi ratificada pelo secretário-geral da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Gilmar Carneiro. Para ele, uma nova política salarial só será estabelecida através de pressões populares, como greves e paralisações gerais. "Espero que a greve geral dê certo para que o Congresso pressione o governo a aplicar uma política salarial decente". Segundo o secretário-geral da CUT, "se Marcílio é simpático aos banqueiros e aos homens do FMI, dá para pressumir que, para o povo brasileiro, ele será pior que a Zélia nas negociações da dívida externa". O presidente da Força Sindical, Luiz Antônio de Medeiros, fez o seguinte comentário sobre a saída de Zélia: "Espero que a demissão da ministra não tenha sido a vingança da ciranda financeira e que não tenha sido também, mais uma vez, a interferência dos banqueiros internacionais nos assuntos internos do Brasil. Espero que o novo ministro restabeleça o poder de compra dos trabalhadores" (JC) (GM) (JB) (O Globo).