A ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, 37 anos, formalizou ontem às 21h30 o seu pedido de demissão ao presidente Fernando Collor, durante audiência no Palácio do Planalto. O novo ministro será o embaixador do Brasil nos EUA, Marcílio Marques Moreira, 59 anos, a ser empossado amanhã. O anúncio da demissão foi feito pelo ministro da Justiça, Jarbas Passarinho. Zélia alegou razões de ordem pessoal para sua saída do governo, que já estava decidida e comunicada a Collor desde o último dia seis. A ministra ficou no cargo 13 meses, 23 dias e oito horas, e é a quarta baixa no Ministério do governo Collor. Zélia começou a sofrer um processo de desgaste irreversível nas últimas duas semanas, quando entrou em choque com o secretário de Desenvolvimento Regional, Egberto Batista, amigo pessoal do presidente Collor e um dos principais coordenadores de sua campanha à Presidência da República. Zélia acusou Batista de ter baixado uma portaria dando para si o poder de conceder cotas de importações para a Zona Franca de Manaus (AM). Por trás dessa decisão de Batista, Zélia identificou interesse do secretário de beneficiar o seu irmão Gilberto Batista, empresário amazonense. Egberto Batista reagiu e teria divulgado versões dentro do governo de que a ministra agia por influência direta do ex-ministro da Justiça, Bernardo Cabral, com quem Zélia ainda mantinha um romance. A versão de Batista ganhou adeptos no círculo mais próximo ao presidente da República devido ao fato de a denúncia da ministra contra o secretário ter saído na imprensa no mesmo dia em que ele revogava a polêmica portaria. Na semana passada, o processo de "fritura" de Zélia atingiu o clímax, quando começaram a vazar do Palácio do Planalto versões de que ela não contaria mais com o apoio irrestrito do presidente e que, no último encontro dos dois, Collor teria aconselhado a ministra a adotar um critério mais político no preenchimento de cargos do Ministério da Economia. O choque com Egberto foi a gota de água para Collor. A ministra já vinha acumulando desgastes junto a quase todos os setores do governo. Vários integrantes do primeiro escalão já tinham feito chegar ao Palácio a informação de que poderiam deixar seus cargos, pois se sentiam neutralizados pela ação centralizadora do Ministério da Economia. Entre eles, o secretário de Ciência e Tecnologia, José Goldemberg; os ministros da Educação, Carlos Chiarelli, e da Agricultura, Antônio Cabrera-- um dos campeões de choques com a ministra--; além do próprio Egberto Batista. Com a unidade da equipe em jogo e convencido de que a política econômica sob o comando de Zélia já se esgotara, o presidente resolveu mudar. Com a saída da ministra Zélia Cardoso de Mello deixa também o governo seus principais assessores: o secretário de Política Econômica, Antônio Kandir; o secretário-executivo do Ministério, João Maia; o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris; o presidente do Banco do Brasil, Alberto Policaro; além de toda a diretoria do BC. O embaixador Marcílio Marques Moreira, que desde o governo Sarney era considerado uma espécie de suplente de ministro, terá agora a missão de tentar uma política conciliatória. Diplomata que se tornou banqueiro (chegou a presidente do Unibanco), Marcílio desfruta de bom trânsito entre os credores estrangeiros, o que deverá ajudá-lo na conclusão de um acordo definitivo sobre a dívida externa brasileira. A escolha do embaixador para o Ministério da Economia foi recebida com cautela por diversos membros da equipe econômica, que viram nessa escolha um sinal de reaproximação com os credores. Marcílio Marques Moreira nasceu no Rio de Janeiro, é empresário e cientista social. De 1960 a 1963 ele ocupou a diretoria do Brasil no FMI (Fundo Monetário Internacional), quando particiou da renegociação da dívida brasileira em 1961. O porta-voz da Presidência da República, Cláudio Humberto, disse que o presidente Collor fez uma avaliação positiva da ministra Zélia. "Os índices da FIESP apontaram um crescimento de 5% na atividade industrial em abril, dm relação a março; a inflação está sob controle e a ministra logrou fechar uma início de acordo com os bancos comerciais internacionais", citou o porta-voz (JC) (GM) (JB).