AS ELEIÇÕES NOS ESTADOS

Personalismo, na opinião de René Dreyfuss; "autoritarismo", na de Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas); "voluntarismo", na Waldir Goés; e arrogância, segundo Aloísio Mercadante, marcaram a primeira etapa do governo Collor, iniciada com sua posse, dia 15 de março, e que terminou com as eleições de 3 de último, quando o país elegeu novos governadores e um novo Congresso Nacional, alterando completamente a correlação de forças políticas entre o poder central, exercido pelo presidente da República, os governadores, o Legislativo e a sociedade. René Dreyfuss, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de vários livros abordando temas políticos, acredita que as eleições abriram um amplo espaço para que o Congresso assuma as suas funções constitucionais, formulando políticas e diretrizes para negociação com o governo, que tende a perder o personalismo que marcou os primeiros meses de gestão na medida em que procura assumir um novo comportamento congressual. Para Dreyfuss, o presidente Fernando Collor vai ter que limar suas ásperas protuberâncias. Observa, porém, que o governo não perdeu todas as suas forças políticas, já que dispõe de uma importante bancada do PRN e outra do PFL no Congresso Nacional, além de contar com parlamentares do PTB, PDS e PDC, que formam respeitável conjunto de forças que vai lhe dar sustentação no Legislativo, forças estas en contraposição às bancadas mais à esquerda, além de governadores, que chegam ao poder com legitimidade e com gás para fazer cobranças. Por isso, assegura Dreyfuss, o governo vai ter que estabelecer um novo tipo de relacionamento com o Congresso Nacional. Herbert de Souza acredita que as eleições de 3 de outubro, fechadas com o segundo turno no último dia 25 de novembro, criaram um espaço efetivo e real para as mudanças do comportamento político do governo Collor, apesar da crise em que ele está mergulhado. Confessando-se um otimista incorrigível, Herbert diz que está estudando os caminhos a serem trilhados. Ele alimenta esperanças em relação às mudanças que surgirão dentro desse novo quadro político que se delinea com as eleições de governadores e parlamentares. Tais mudanças-- ele acredita-- vão se dar em dois níveis. No primeiro, estão os governadores eleitos, cuja representatividade política pode ser a chave da descentralização dos projetos políticos e econômicos do governo. Não é atoa-- diz Herbert-- que os governadores eleitos do Rio Grande do Sul, Alceu Collares (PDT), e de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), já se articulam propondo medidas alternativas que se confrontam com a política do governo Collor. Tais comportamentos, segundo Herbert de Souza, abrem possibilidades, de certa forma, novas, porque o Brasil pode ter duas políticas econômicas: uma do Planalto e outra da planície. A primeira representada pelo desejo do presidente da República e seus auxiliares de imporem o que acreditam ser o melhor para o país; em contraponto surge a segunda política, a da planície, forçada pelos governadores legitimamente eleitos pela maioria do sufrágio popular. No segundo nível de mudanças, segundo Herbert, está o Congresso Nacional com os seus deputados e senadores eleitos dia 3 de outubro. Observa, porém, que ninguém está em condições de afirmar previamente quais são a cara e a característica do Congresso, que é novo (JC).