Depois de pesquisar 81.628 domicílios, ouvindo cerca de 300 mil pessoas em 820 municípios, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) acaba de divulgar os dados com os quais procurou avaliar o perfil do brasileiro, um povo que, a julgar pelos resultados do levantamento, está longe ainda de alcançar a sua cidadania plena. O estudo, feito em outubro de 1988, é um suplemento da tradicional PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio). De acordo com a pesquisa, os capítulos sobre Justiça, Educação e Mobilidade Social demonstram que, nos últimos cinco anos, por exemplo, os brasileiros se envolveram em mais de 10 milhões de conflitos por questões trabalhistas, problemas criminais, separações conjugais, entre outros, e, apesar de tantas violações aos direitos do cidadão, um mínimo de pessoas recorreram ao sistema judiciário para resolver suas questões. As 65,7% de pessoas que não quiseram procurar a Justiça revelam ou descrença nas instituições ou falta de acesso a elas. "A pesquisa demonstra a necessidade de se promover a democratização dos serviços judiciários", analisa o criminalista Nilo Batista. No plano da Educação, os números do IBGE oferecem aspectos preocupantes. Nas escolas privadas, por exemplo, apenas 2,6% dos estudantes são negros, contra 66,6% de brancos, 30% de pardos e 0,8% de amarelos. "Este é mesmo um país racista", afirmou a socióloga Vanilda Paiva. "Vivemos em uma espécie de apartheid racial e econômico na escola", disse. No capítulo da mobilidade social, os indicadores sobre trabalho e mão-de- obra revelam que dos mais de 35 milhões de trabalhadores pesquisados, 65,7%, ou seja, cerca de 23 milhões, começaram a trabalhar com menos de 14 anos de idade. O fenômeno acentua-se na Região Sul para a faixa anterior aos 10 anos (22,1%). Os homens, principalmente, são os que iniciam sua vida profissional mais cedo (JB) (O ESP).