CIENTISTAS DENUNCIAM DESVIOS NO PROGRAMA NUCLEAR DO PAÍS

O grupo de trabalho que analisa os rumos do Programa Nuclear Brasileiro, coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), em Brasília, concluiu preliminarmente que o governo deve construir nove reatores nucleares nos próximos anos. A informação foi divulgada pelos físicos Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Luiz Pinguelli Rosa, da Sociedade Brasileira de Física (SBF), que tiveram acesso aos documentos elaborados pelo grupo de trabalho. Segundo os físicos, três reatores seriam para a Marinha, um para o Exército, um para a Aeronáutica, dois para pesquisas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e dois para geração de energia elétrica. De acordo com o relatório divulgado pelos físicos, um dos reatores, já em construção pela Marinha, custará em torno de US$329 milhões, terá urânio enriquecido a 20% e deverá estar concluído em 1995. A Marinha também contará com um reator para teste de materiais, construído no Centro Experimental de Aramar, em Iperó (SP), com investimento de US$268 milhões. E ainda outro, a ser fabricado pela empresa Engepron, até o ano 2000, por US$400 milhões. Segundo o relatório, a Aeronáutica teria um reator espacial, para uso em satélites, nos próximos 10 anos, orçado hoje em US$200 mil/ano. O Exército projeta um reator a gás para ampliação de know-how, pressumivelmente a urânio natural e grafite, a ser construído até 1994, com custo não especificado, informaram os físicos. O CNEN teria dois reatores para pesquisas: um com capacitação técnica nos ciclos plutônio-urânio-tório e outro com alto fluxo, ambos sem custos e datas de fabricação definidos, de acordo com o relatório. O documento informa que o grupo de trabalho da SAE ainda propõe que o governo deve construir mais duas centrais nucleares em Angra dos Reis (RJ), além de Angra 2 e Angra 3, hoje com obras paralisadas. Candotti e Pinguelli Rosa encaminharão esta semana o relatório ao Congresso nacional como alerta sobre os indicativos de que o Brasil poderá estar caminhando em direção à construção da bomba atômica, contrariando a Constituição, que restringe o uso da energia nuclear para fins exclusivamente pacíficos (JC).