A Polícia Federal prendeu, ontem, a pedido do ministro da Justiça, Paulo Brossard, o ex-integrante do Serviço Secreto da Marinha Argentina, Cláudio Vallejos, um marinheiro que, em entrevista a revista Senhor, denunciou que, sob orientação do SNI (Serviço Nacional de Informações), o regime militar argentino agiu na prisão e desaparecimento do pianista Francisco Tenório Júnior, quando participava de uma turnê musical naquele país em 1976. A Secretaria Geral do Ministério da Justiça pediu informações ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) sobre o desaparecimento do pianista. Os autos do processo foram enviados à Procuradoria Geral da República para que se manifeste a respeito. A medida foi tomada pelo ministro depois do pedido do deputado Eduardo Suplicy (PT-SP). O ministro conselheiro da Embaixada do Brasil em Buenos Aires na época, Marcos Henrique Camilo Cortes, hoje embaixador brasileiro na Austrália, esteve com o pianista três dias após a sua prisão e manteve segredo até para o fato de que agentes do SNI participaram dos interrogatórios e das torturas a Tenório Júnior. Cláudio Vallejos conta que Tenório Júnior foi assassinado, em Buenos Aires, com um tiro na cabeça dado pelo tenente-de-navio Alfredo Astiz, poucos dias depois de ter sido preso na madrugada de 28 de março de 1976, naquela cidade. A execução-- de acordo com o relato do ex-militar-- fora aprovada por agentes do SNI que estavam na capital argentina. Vallejos afirma que o aparelho repressor argentino trocava informações com o SNI, rotineiramente. Identifica entre os agentes do SNI os majores "Souza Baptista, Batista Vieira e o capitão Visconti, que participavam de torturas contra brasileiros". E cita também o então ministro-conselheiro da embaixada brasileira, Marcos Henrique Camilo Torres, que teria conversado com Tenório na prisão. Interrogado e torturado por oficiais argentinos e brasileiros, descobriu-se apenas que o pianista não tinha antecedentes políticos, mas tinha muito amigos comunistas no Brasil. Libertá-lo ou prendê-lo oficialmente, sem culpa formada, traria complicações para os sistemas de repressão dos dois países. Daí a decisão de matar e enterrar Tenório num cemitério clandestino". Vallejos relata ainda que militares argentinos vieram ao Rio de Janeiro várias vezes buscando informações sobre refugiados argentinos no Brasil, tendo sido recebidos pelo então chefe do SNI, o hoje general reformado Newton de Oliveira Cruz. Também relata o assassinato, em condições semelhantes à de Tenório, de outros brasileiros: Sidney Marques do Santos, Luís Renato do Lago Farias, Henrique Spinoza e Maria Regina Marcondes Pinto de Espinosa (revista Senhor) (JB).