O governo vai entregar às cooperativas agrícolas a organização dos assentamentos nas terras desapropriadas para a reforma agrária. A decisão foi anunciada pelo secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Lourenço Vieira, 47 anos, que tomou posse ontem. O novo secretário-- que foi presidente do INCRA no governo Ernesto Geisel-- disse que o governo considera o arrendamento de terras uma das alternativas para a realização da reforma agrária. Ou seja: das 500 mil famílias que o presidente Collor prometeu assentar, uma parte será formada de arrendatários. A intenção de integrar as cooperativas à reforma agrária havia sido revelada pelo ministro da Agricultura, Antônio Cabrera, ao tomar posse. Ontem, Lourenço Vieira confirmou que o Ministério vai encampar uma antiga proposta da organização das Cooperativas do Brasil (OCB). A idéia é deixar que uma cooperativa selecione, em conjunto com o governo, as famílias a serem assentadas. A OCB indicaria o produto a ser cultivado e a cooperativa responsável, que assumiria o fornecimento de insumos, a assistência técnica e a comercialização da safra. Os assentados passariam a ser também cooperados. Isso fortalece o setor rural e amplia o poder de barganha das cooperativas", afirmou Roberto Rodrigues, presidente da OCB. Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a proposta desvirtua o sentido social da reforma agrária e permite que as cooperativas direcionem a produção para a exportação. "A cooperativa é uma empresa, que procura a produção que dá mais lucro", reagiu o padre Ermano Alegre, assessor da entidade. Em sua opinião, a cooperativa deixaria em segundo plano o problema social dos sem-terra. A CPT defende uma reforma agrária voltada para o mercado interno. O secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), Erny Knorst, disse que "na grande maioria, as cooperativas são empresariais, dominadas por meia dúzia, e não visam o bem-estar do pequeno produtor". O Ministério da Agricultura vai utilizar o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) para verificar via satélite, a situação das terras desapropriadas em que não foram feitos assentamentos. Lourenço Vieira calcula que essas áreas alcancem cerca de 5 milhões de hectares. Sobre o programa de incentivo ao arrendamento que o ministério vai lançar nos próximos dias, o secretário-executivo disse que é uma forma de se evitarem "conflitos e invasões". O programa, já existente no âmbito do Banco do Brasil, se destina a produtores com tradição e capital do sul e sudeste cujas famílias não tenham mais terras para expandir a produção (FSP).