O novo presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Affonso Collor de Mello, de 40 anos, tomou posse ontem no Congresso Nacional. Em seu discurso, ele defendeu a iniciativa privada, comentou o desgaste dos regimes socialistas e priorizou o combate à inflação como objetivo de seu governo. "A inflação nos desorganiza e desmoraliza. Ela é o imposto mais cruel, uma agressão aos assalariados. A meta número um do meu primeiro ano de gestão não é conter a inflação, é liquidá-la", prometeu. São os seguintes os principais trechos do seu discurso: dívida externa-- "não se trata, para nós, de saber quanto poderemos crescer depois de servir a dívida, mas sim quanto poderemos pagar depois de garantido nosso crescimento econômico em níveis consentâneos com sua taxa histórica e com o projeto de desenvolvimento e justiça que norteará nosso futuro"; livre iniciativa-- "creio que compete primordialmente à livre iniciativa-- não ao Estado-- criar riqueza e dinamizar a economia. Ao Estado corresponde planejar sem dirigismo o desenvolvimento e assegurar a justiça, no sentido amplo e substantivo do termo"; capital estrangeiro-- "não abrigamos nenhum preconceito colonial ante o capital estrangeiro. Ao contrário, tornaremos o Brasil uma vez mais hospitaleiro em relação a ele, embora, é claro, sem privilegiá-lo"; EUA-- "pretendo exercer, no relacionamento bilateral com os EUA, a melhor disposição para o diálogo e o entendimento. O Brasil deseja sincera e fortemente que as relações com os EUA tenham sentido positivo"; ONU e OEA-- "darei atenção especial às Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos"; elites-- "há no Brasil dois tipos de elite. Há elites responsáveis, modernas e criadoras, legitimadas pela eficiência e pela qualificação. E há elites anacrônicas, atrasadas, que não hesitam em posar como donas do nacionalismo ou do liberalismo enquanto vivem à sombra de privilégios cartoriais, defendendo interesses do mais puro particularismo. Contra o egoísmo doentio dessas elites inscrevo meu projeto de modernização do Brasil"; privatização-- "a proposta de modernização econômica pela privatização e abertura é a esperança de completar a liberdade política, reconquistada com a transição democrática, com a mais ampla e efetiva liberdade econômica. A privatização deve ser completada por menor regramento da atividade econômica"; cidadania-- "a cidadania é o direito do indivíduo na convivência republicana, na liberdade como diálogo e na justiça como respeito mútuo entre as pessoas e os grupos. Por isso, me esforçarei por governar sem jamais perder de vista o valor do cidadão". Collor foi então ao Palácio do Planalto, onde recebeu a faixa presidencial do ex-presidente José Sarney-- que partiu para o Maranhão após a cerimônia-- e assinou as nomeações de seus 12 ministros, além de quatro decretos e cinco medidas provisórias. Elas determinam a reforma ministerial, venda de imóveis pertencentes à União, contenção de despesas e restrição à acumulação de empregos públicos. Em seguida fez um discurso no parlatório. Diante de centenas de pessoas, Collor se comprometeu "a dar sua própria vida, se necessário, para cumprir seu programa de governo". "Quero, neste instante (...), voltar o melhor do meu pensamento e a maior das minhas preocupações para a imensa maioria de brasileiros, a quem eu lego esta conquista democrática; aos descamisados, aos pés descalços, àqueles que querem justiça social no país para poderem viver condignamente", disse. Em seguida afirmou: "Juro a vocês, diante do altar das minhas convicções, que ao lado do povo brasileiro, da sociedade civil organizada, haveremos sim, minha gente, de reconstruir o nosso país, para recuperarmos a confiança no seu verdadeiro destino" (FSP) (JC) (GM) (JB) (O Globo).