Dois decretos do presidente José Sarney, assinado em março de 1988 e 1989, de números 95.859 e 97.596, transformaram o Exército no maior proprietário de terras do país, com 6,2 milhões de hectares. A soma das 35 glebas de terras da União repassadas corresponde ao dobro do território da Bélgica. Somadas ao campo de provas da Serra do Cachimbo-- destinado ao Estado-Maior das Forças Armadas pelo presidente João Baptista Figueiredo em 1982--, as propriedades das instituições militares, só na Amazônia, atingem 10 milhões de hectares, duas vezes e meia a área da Suíça, na Europa. As terras públicas da União doadas pelo presidente Sarney ao Exército estavam reservadas para colonização e reforma agrária, objetivos expressos do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)- - agência governamental que detinha as áreas. Ali, durante a década passada, deveriam ter sido assentados os migrantes sem terra de outras partes do país com que o governo Emílio Médici pretendia ocupar a Amazônia legal. Nomes como Projeto Fundiário Araguaína (Tocantins), Boca do Acre (Amazonas), ou Gleba Tacana (também no Amazonas), são denominações que revelam a magnitude das terras envolvidas. "Projetos fundiários" eram grandes áreas destinadas à ocupação. Internamente, cada uma delas continha "glebas", por sua vez divididas em "lotes"-- cada uma das propriedades. De acordo com o presidente do INCRA, Mári Pegorato, todas as terras foram "requisitadas" pelo Exército. Segundo ele, estavam desocupadas (FSP).