O agente penitenciário Daniel Vitalino Cardoso, funcionário da Penitenciária do Estado, passou os últimos dois anos e quatro meses preso na Casa de Detenção (Carandiru, zona norte de São Paulo). Ele foi acusado pela polícia como "justiceiro"-- matador profissional de assaltantes. Foi condenado a 19 anos e meio. No dia 4 de julho, após ter o julgamento anterior anulado, foi absolvido por sete votos a zero, por falta de provas. Cardoso contou para o jornal Folha De São Paulo, com exclusividade, sua experiência como detento. "A corrupção é a norma na Casa de Detenção", disse Cardoso. Os presos que mantêm ligações com criminosos do lado de fora da cadeia, segundo ele, são os mais poderosos. "Eles decidem sobre a vida de outros presos, de funcionários e até de diretores", disse. Esses presos têm celas especiais, são conhecidos como "patronato", e conseguem favores repassando aos diretores e funcionários o produto de suas atividades ilegais. O diretor técnico de divisão, Moacir dos Santos, exige relógios,
23317 sapatos e camisas de seda para favorecer presos, disse Cardoso. Cada favor tem um preço. Para ser "dono" de uma cela, o preso paga o equivalente a NCz$30 mil, segundo Cardoso. Como proprietário, o detento escolhe quem vive com ele. "Eles compram garotos-- jovens em primeira condenação-- e os transformam em suas mulheres", disse. Cada garoto está cotado em NCz$420,00, ou 500 maços de cigarro. "Os garotos são tratados a base de hormônio feminino e depois revendidos para outros presos". Quem fornece o hormônio, a maconha e a cocaína são funcionários da Casa de Detenção. Para se conseguir uma vaga como auxiliar de chefia, posição que permite a um detento controlar outros, paga-se US$300. Segundo Cardoso, nestes cargos os presos registram em seu nome a produção de outros. "Fica tudo no nome dos patronatos que dividem os lucros com os diretores", disse (FSP).