Nas contas da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e da CGT (Central Geral dos Trabalhadores), os dois dias de greve geral contra o "arrocho" salarial do "Plano Verão" paralisaram cerca de 35 milhões de trabalhadores em todo o país. Num balanço final dos resultados do movimento, os presidentes da CUT, Jair Meneguelli, e da CGT, Joaquim dos Santos Andrade, afirmaram que 70% dos 50 milhões de trabalhadores que formam a População Economicamente Ativa (PEA)-- dados de 1986-- cruzaram os braços nos últimos dois dias. "E o custo da intransigência do governo ficou em torno de US$1,6 bilhão", afirmou Jair Meneghelli. Para chegar a esta cifra, ele utilizou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que em 1987 indicavam que o país produzia, diariamente, o equivalente a US$1 bilhão. Para a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), houve comparecimento entre 90% e 95% nas indústrias nos dois dias de greve. No Estado do Rio de Janeiro, a FIRJAN (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) informou que 73% (93 mil funcionários) compareceram aos seus empregos nos dois últimos dias. A indústria fluminense emprega 127 mil operários. A entidade anunciou também que os faltosos terão os dias descontados, e que o valor da produção média caiu de US$90 milhões para US$54 milhões nos dois últimos dias. Também a FEBRABAN (Federação Brasileira dos Bancos) informou que, à exceção das praças do Rio de Janeiro (capital) e de Salvador (BA), poucos bancários aderiram ao movimento paredistas nas demais capitais. A Polícia Federal efetuou 170 prisões em todo o país, entre piqueteiros e líderes sindicais, que foram liberados após prestarem depoimentos. A seguir um balanço da greve nas principais cidades do país: Brasília (DF)-- trinta ônibus foram depredados nas cidades satélites de Gama, Ceilândia e Taguatinga. Os rodoviários e a maioria dos servidores públicos não pararam. A greve afetou mais o setor de saúde e educação, onde as escolas públicas e particulares ficaram fechadas e os hospitais só atenderam serviços de emergência. Porto Alegre (RS)-- o setor de transportes, os servidores públicos federais, estaduais e municipais, os comerciários e os bancários aderiram ao movimento. Foram feitas algumas prisões e o comando de greve calculou em 80% a adesão dos quatro milhões de trabalhadores gaúchos. Curitiba (PR)-- os funcionários públicos pararam, assim como os transportes coletivos. Na indústria a adesão foi parcial. O governador Álvaro Dias (PMDB) anunciou que não cortaria o ponto dos grevistas por ser o movimento paredista "legítimo e pacífico". Salvador (BA)-- ônibus e trens pararam. Na indústria e no comércio a greve foi parcial. A ação de piquetes fechou algumas agências bancárias. Os servidores também aderiram ao movimento. Seis pessoas, entre elas três sindicalistas, foram presos quando faziam piquetes. Recife (PE)-- o segundo dia da greve foi marcado por violência: 14 pessoas (entre elas o vereador pelo PT João Paulo Lima da Silva) foram violentamente espancados e presas pela Polícia Militar. O estudante secundarista Benhur de Oliveira, de 23 anos, foi espancado e levado para o hospital com traumatismo toráxico. Os servidores aderiam ao movimento. Fortaleza (CE)-- cerca de 80% dos rodoviários aderiram à greve. Todo o efetivo da PF esteve de prontidão nas ruas da cidade, armados de escopetas e fuzis. Mais de 200 ônibus foram depredados. As repartições públicas municipais, estaduais e federais funcionaram. Várias pessoas foram presas. Maceió (AL)-- a adesão na indústria e no comércio foi parcial. Os servidores permaneceram em greve no segundo dia do movimento. Os rodoviários e os bancários do Banco do Nordeste do Brasil decidiram continuar em greve hoje. Natal (RN)--trasporte e comércio funcionaram. Os operários da construção civil, eletricitários, servidores públicos e policiais civis aderiram ao movimento. A PM investiu com cassetetes contra a ação de piqueteiros n centro da cidade. Várias pessoas ficaram feridas, entre elas um cinegrafista que filmava a ação dos policiais contra os grevistas. João Pessoa (PB)-- o setor de transportes paralisou a cidade. Comércio, bancos, escolas e repartições públicas não abriram. Aracaju (SE)-- quatro pessoas foram presas e 85% dos trabalhadores aderiram ao movimento. Mais de 80% do sistema PETROBRÁS em Sergipe ficaram paralisados. Teresina (PI)-- cerca de 90% dos trabalhadores aderiram à greve. O comércio, os bancos e as repartições públicas não abriram. São Luís (MA)-- cerca de 800 funcionários da CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) ficaram confinados por 48 horas na sede da empresa garantindo o transporte de minério de ferro para o exterior. Os funcionáris públicos, professores e rodoviários aderiram em massa à greve. Vitória (ES)-- quatro prisões, espancamentos e correrias pela cidade marcaram o segundo dia da greve geral. A vereadora pelo PT Brice Bragatto foi espancada e presa junto com o presidente da CUT estadual, Rafael Scardua, e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Tarcísio Vargas, que sofreu ferimentos. A cidade toda parou. Cuiabá (MT)-- a cidade também parou. Não houve ônibus e o comércio não abriu, ao contrário dos bancos. Não foram registrados incidentes. Rio Branco (AC)-- bancos e repartições públicas funcionaram parcialmente. Não houve transporte coletivo. Belo Horizonte (MG)-- o transporte funcionou precariamente e os professores lideraram o movimento grevista. Em Contagem, os metalúrgicos pararam a produção da Mannesmann e da Belgo-Mineira. Cerca de 550 mil trabalhadores aderiam à greve. Manaus (AM)--o comércio e as indústrias da Zona Franca funcionaram precariamente. Centenas de policiais foram colocados nas ruas pelo governador Amazonino Mendes (PMDB), depois de ser pressionado pelo governo federal, que ameaçava intervir no estado. Belém (PA)-- o policiamento ostensivo garantiu o funcionamento parcial dos transportes. Houve confronto entre trabalhadores da construção civil e PMs. Bancos particulares abriram, mas as escolas permaneceram fechadas. O comércio funcionou precariamente. Rio de Janeiro (RJ)-- nenhum transporte de massa funcionou nos dois dias da greve. Servidores municipais, estaduais e federais aderiram em massa ao movimento. O Exército ficou de prontidão e ocupou a Central do Brasil. O militante do PDT Ronaldo Selle, de 27 anos, foi atingido por um tiro nas costas por desconhecidos quando tentava fazer com que um motorista de ônibus aderisse à greve. Ele perdeu um rim e está em estado grave. A PM investiu contra vários piquetes, também usando de violência. Comércio e bancos funcionaram precariamente. Em Niterói, a greve foi total, com vários incidentes entre PMs e piqueteiros, com algumas prisões. Em Volta Redonda, a greve também foi total. Os metalúrgicos da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) só mantiveram os alto-fornos funcionando. O prejuízo da empresa somou US$9,6 milhões. O juiz da 4a. Vara Cívil da cidade, Antônio Carlos dos Santos Bitencourt, negou à CSN ação de manutenção de posse da usina, alegando que os metalúrgicos não cometeram escessos nem danificaram equipamentos. São Paulo (SP)-- os ônibus particulares colocaram 30% dos seis mil veículos nas ruas. O comércio, os bancos funcionaram precariamente. A PM também investiu contra a ação dos piqueteiros. Vária pessoas foram presas e 366 ônibus foram depredados. Na região do ABC, várias montadoras de veículos paralisaram sua produção com a adesão em massa dos metalúrgicos. Também no ABC, a PM investiu contra os trabalhadores, mas não foram registradas prisões (JB) (FSP) (O Globo) (JC).