O governo federal, em contraste com toda a sociedade, acha que o "Plano Verão" está dando resultados positivos. Para comprovar isto, o governo divulgou recentemente a diminuição do déficit de caixa do Tesouro (diferença entre receitas e despesas). Do total de NCz$1,05 bilhão previstos antes do plano, o déficit de janeiro ficou em NCz$84,4 milhões (cerca de 90% menor, em termos reais, do que o de janeiro de 1988). Discursos do governo à parte, há indícios de que o plano não vai tão bem assim. Os preços, supostamente congelados, subiram 2,08% em São Paulo, só nos primeiros 15 dias do "choque", conforme apurou a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), da USP (Universidade de São Paulo). Os itens que colaboraram para esse índice foram: alimentação (alta de 4,4%), serviços pessoais (4,31%) e serviços de saúde (4,17%). A falta de produtos aumentou, já atingindo os eletrodomésticos, e o ágio corre solto no mercado. Razões para igual ou maior pessimismo em relação aos resultados do "Plano Verão" têm os trabalhadores, que tiveram seus salários arrochados. Por isso, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a CGT (Central Geral dos Trabalhadores) decidiram realizar uma greve geral nos próximos dias 14 e 15. A principal reivindicação é a recomposição do poder de compra dos salários existente no início do "Plano Cruzado" (março de 1986). Pelas contas do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), para isso seriam necessários reajustes de 70,28% a 99%, conforme a data-base da categoria. Outra reivindicação das centrais sindicais é a revogação do artigo 7o. da medida provisória no. 32, que instituiu o "Plano Verão". O artigo proíbe apelação judicial para a reposição de perdas salariais anteriores a fevereiro de 1989. De acordo com o professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho, a reivindicação dos trabalhadores de recompor o poder aquisitivo de seus salários aos níveis de março de 1986 é justa. Isso porque-- argumenta ele-- o "Plano Cruzado" congelou os salários daquele mês pela média de seus valores reais entre setembro de 1985 e fevereiro de 1986, acrescentando um abono geral de 8%. Com isso, o salário real médio de março de 1986 equivale, na verdade, a 74,64% do pico de seu valor real na data do dissídio de cada categoria em 1985. "Ou seja, todo mundo ficou com uma perda média de 25,36% em relação ao pico de seu salário em 1985", afirmou o professor. Já a média real dos salários de 1988, fixada como base pelo "Plano Verão", diminuiu ainda mais o valor real dos salários. No global, pelas contas do professor, ela representa 52,8% do pico dos salários de 1985, ou uma perda de 47,2%. A recomposição necessária para que o poder de compra dos salário volte aos seus valores de março de 1986 é mais modesta. Os cálculos do professor apontam a necessidade de um reajuste global médio de 41,38%-- variando de 33,99% a 51,70%, dependendo da data-base de cada categoria. Isso sem contar a inflação de janeiro e fevereiro (Revista Isto É/Senhor no. 1014).