Com a geração de energia pela primeira turbina da hidrelétrica de Balbina (177 km a nordeste de Manaus (AM), em linha reta), anteontem, torna-se simbolicamente irreversível o que ambientalistas consideram um absurdo ecológico. Desde 1981, quando começou a ser construída, a usina consumiu US$800 milhões, 60% a mais do que o previsto, está alagando um área de 2.360 quilômetros quadrados e vai gerar 30 vezes menos energia que a hidrelétrica de Tucuruí (250 megawatts contra 4 mil megawatts). Perdida essa batalha no Amazonas, os inimigos das hidrelétricas-- um espectro que abrange das populações indígena e ribeirinha a cientistas e organizações de defesa do índio-- voltaram suas miras para o Pará, focalizando-as na usina de Cararaô. Ela faz parte do chamado complexo de Altamira (a 461 km de Belém, no Pará), ao lado da hidrelétrica de Babaquara, primeira fase do aproveitamento do Rio Xingu previsto no "Plano 2010" da ELETROBRÁS para gerar 22 mil megawatts. O início das obras ainda é incerto. Como, de resto, todo o "Plano 2010", que prevê a construção de quase 80 hidrelétricas na Amazônia e se baseou na premissa de que o país observaria uma taxa de crescimento médio anual da ordem de 6,8% ao ano. Babaquara, que deveria ser a primeira a ser construída, cedeu sua prioridade para Cararaô, que inundará uma área de 1,5 mil quilômetros quadrados, ante os 6,5 mil quilômetros quadrados da hidrelétrica de Babaquara. É neste clima que se pretende fazer uma demonstração de força no 1o. Encontro dos Povos do Xingu, que será realizado entre os dias 20 e 25, deste mês, em Altamira. O objetivo do evento-- para o qual foram convidados personalidades do movimento ambientalista internacional-- não é necessariamente descartar o projeto, mas "rediscuti-lo no Congresso Nacional, com amplo acesso a informações". É o que afirma Lúcia Mendonça Morado de Andrade, coordenadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo, e uma das organizadoras do encontro (FSP).