A primeira carta de um papa sobre a mulher, na história do catolicismo, publicada em 30 de setembro último por João Paulo 2o., continua provocando uma intensa polêmica na Igreja. A carta está sendo considerada por uns como feminista e por outros como uma versão mais atualizada da tradicional posição eclesiástica "machista". Mais intensa na Europa e nos EUA, a polêmica sobre a carta apostólica "mulieris dignitatem" ("Sobre a dignidade da mulher e sua vocação) está apenas começando no Brasil. A tendência, porém, é que se intensifique a médio prazo, considerando a existência de um significativo número de teólogas na Igreja brasileira e a hegemonia exercida pelas mulheres nas comunidades eclesiais de base. A carta sobre a dignidade da mulher foi escrita pessoalmente por João Paulo 2o., em língua polonesa, sendo depois traduzida para o latim, língua oficial da Igreja Católica. Assinada pelo papa em 15 de agosto último, no encerramento do Ano Mariano, foi divulgada somente um mês e meio depois. Com o peso pastoral de ser um documento pontifício, a carta foi lançada apenas alguns meses depois que a Conferência Episcopal dos Bispos dos EUA concluiu a penúltima redação de um documento-- intitulado Sócias no mistério da rendenção. Uma resposta pastoral às perguntas
18028 das mulheres à Igreja e à sociedade-- resultante de uma ampla consulta junto às comunidades católicas de 100 dioceses e 60 universidades norte-americanas. O processo de redação definitiva do documento dos bispos dos EUA-- prometido para publicação ainda este ano-- passou a ter, com a carta de João Paulo 2o., um referencial vindo diretamente da mais alta autoridade da Igreja. A carta representa, também, uma espécie de freio da atitude pastoral mais aberta diante do espaço feminino na IGreja por parte do episcopado norte-americano (FSP).