PAÍS ESTÁ SENDO "SANGRADO"

O ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, afirma que "o acordo que o Brasil conseguiu fechar com os bancos credores é o melhor de todos os tempos". Em outras épocas, antecessores do titular da Fazenda disseram a mesma coisa. O fato, porém, é que as divisas do Brasil vêm sendo sangradas pelos bancos internacionais. Um estudo do economista Marcos Arruda mostra que o país pagou nada menos que US$170 bilhões de serviço da dívida no período 1969/87, sendo US$101 bilhões só de juros. O Brasil já pagou, portanto, mais do que o seu débito total, que ao final do ano passado era de US$121,3 bilhões, de acordo com dados prelimanares do Banco Central. Marcos Arruda mostra, também, que os recursos transferidos para o exterior dariam para resolver o problema social brasileiro. Na "Nova República" o pagamento de juros já superou US$25 bilhões, o que corresponde a mais de 15,2 milhões de salários-mínimos por ano. Em 19 anos, o serviço da dívida abocanhou nada menos que 136,4 milhões de salários-mínimos. Essa sucção de recursos penaliza violentamente os trabalhadores de baixa renda. Talvez por isso um estudo que o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas do Ministério do Planejamento) acabou de elaborar, de autoria dos economistas Regis Bonelli e Guilherme Sedlacek, constata que "o Brasil ostenta uma das distribuições de renda mais perversas do mundo". Dados ainda inéditos utilizados pelos técnicos do IPEA comprovam que em 1986 os assalariados localizados na base da pirâmide de renda (o enorme contingente que compõe os 30% inferiores) tinham um rendimento médio de apenas Cz$596,30. Já os que estavam no topo, os que pertenciam ao seleto grupo dos 1% mais ricos, recebiam em média Cz$47.286,20. Logo, os mais ricos ganhavam cerca de 94 vezes acima dos trabalhadores de baixa renda. Analisando a distribuição do bolo nos últimos 25 anos, o IPEA constatou que "sua divisão sempre foi marcada por uma acentuada perversidade e reconhece que é ilusão pensar que o simples crescimento acelerado pode reverter este quadro" (JC).