MINISTRO DIZ QUE AIDS ATACA A ELITE

A afirmação do ministro da Saúde, Borges da Silveira, de que 88% dos aidéticos possuem curso médio ou superior completo, constatando que é uma "doença de elite", não foi confirmada sequer pelos técnicos do Ministério da Saúde. O trabalho que serviu de base para as conclusões do ministro-- expressas por ele na semana passada-- foi um estudo sobre o nível de escolaridade, feito em março deste ano, em apenas 672 dos 2.956 casos da doença registrados até aquele mês. O documento não especifica a situação sócio-econômica do paciente. "Jamais podemos dizer que a AIDS atinge mais esta ou aquela classe social, porque não se tem um estudo sócio-econômico que mostre o perfil dos pacientes. O máximo que se pode dizer, analisando mais profundamente o estudo sobre nível de escolaridade, é que os casos estão concentrados na classe média e que a doença ainda não chegou às favelas", afirmou a diretora da Divisão de AIDS do Ministério da Saúde, Lair Guerra de Macedo Rodrigues. Ela ressalva que o mesmo não pode ser dito quanto à Infecção AIDS" (pessoas que contraíram o vírus e não desenvolveram a doença): "Ainda não há qualquer estudo sobre os infectados publicado no Brasil", afirmou Lair, que no entanto já está com uma análise completa de infectados pronta para publicação. Dentro do trabalho que Lair irá publicar consta uma análise de mendigos do Rio de Janeiro, feita pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) em novembro do ano passado. Dos 100 mendigos submetidos ao teste para detecção do vírus "HIV", 70 eram doadores de sangue: cinco (7%) dos doadores apresentaram o vírus da AIDS, 16 eram portadores de sífilis e cinco eram transmissores de doença de Chagas. Todas essas doenças são transmitidas pelo sangue e esses mendigos vendiam seu sangue a bancos privados do Município do Rio de Janeiro. De 100 prostitutas testadas no Rio de Janeiro, em 1987, 6,7% apresentaram o vírus. Uma pesquisa por amostragem feita em 611 presidiários do Rio de Janeiro apontou 1,8% como portadores assintomáticos de AIDS-- têm o vírus e não desenvolveram os sintomas da doença. Isso nos mostra claramente que a infecção não está restrita a pessoas de classe alta", afirmou Lair, alegando que a pesquisa de nível sócio-econômico de aidéticos não foi feita até hoje porque há outras questões prioritárias, como montar a estrutura e o controle de sangue (FSP).