O sociólogo Herbert de Souza, presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) e diretor-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), culpou ontem, em São Paulo, durante a 40a. Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), o governo federal pela contaminação de AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) em transfusões de sangue. Segundo ele, "trata-se de um crime político porque é possível controlar a qualidade do sangue". Ele citou como prova os índices baixos alcançados em outros países: entre 1% e 3% nos EUA, por exemplo. E mostrou que no Brasil a situação piorou, baseado em estatísticas do próprio Ministério da Saúde: em 1987, o volume de casos era de 16%, passando para 18% neste ano. Para Herbert de Souza, "até a mudança do governo não espero nenhum avanço sobre a questão da AIDS no Brasil, pois até hoje não foi tomada nenhuma atitude séria e responsável para enfrentar o problema". "Se houver uma solução, ela vai nascer da mobilização da sociedade e daqueles governo estaduais que mostrarem sensibilidade para o problema", disse ele. Durante a reunião, a coordenadora da ABIA, Carmem Dora Guimarães, divulgou um trabalho realizado no Rio de Janeiro, mostrando que as características sociais, políticas e econômicas dos aidéticos no estado fogem totalmente à realidade do perfil mostrado pelo governo na campanha de prevenção à AIDS. "Nós analisamos os casos notificados no Rio até janeiro (aproximadamente 500) e verificamos que os doentes de AIDS são 90% homens, dos quais 70% homossexuais, ditos bissexuais, e que as mulheres são pouquíssimos casos, transmitidos por transfusão ou contaminação do parceiro", informou ela. O levantamento da ABIA mostrou ainda que a incidência é grande entre os hemofílicos e aqueles que adoeceram por transfusão de sangue, que estão entre 18% e 20%, e que os aidéticos, em geral, são de classe média baixa (FSP) (O Globo).