HERBERT DE SOUZA CRITICA O DESCASO DO GOVERNO

O sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), presidente da ABIA (Associação Interdisciplinar de AIDS) e presidente da ABRA (Associação Brasileira pela Reforma Agrária), ao iniciar palestra na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, afirmou que "viver só por viver não quer dizer nada, é preciso estar vivo na produção de alguma coisa. A vida a qualquer custo não tem sentido. É preciso valorizar as 24 horas do dia e viver intensamente. Eu peço que não me deixem sofrer mais do que eu estou destinado a sofrer. Entendam também que não se pode deixar para pensar na morte só quando ela está perto de nós". Herbert de Souza perdeu seus dois irmãos com AIDS, o cartunista "Henfil" (Henrique de Souza Filho) e o músico Francisco Mário, ambos hemofílicos que adquiriram a doença através de transfusões com sangue contaminado. Na sua palestra, Herbert de Souza criticou os governos estadual e federal pelo descaso com que vêm tratando a AIDS. Segundo ele, "se o governo atuasse radicalmente na vigilância sanitária dos bancos de sangue, se ele liberasse quantias suficientes para a implantação de um programa eficaz de combate à AIDS, muita gente seria mais informada e consequentemente deixaria de sofrer. Se não bastasse a AIDS para nos martirizar, temos que nos preocupar também com a incapacidade do governo". Herbert de Souza disse ainda que "a informação é o único remédio para se precaver contra a AIDS e àqueles que estão em situação igual a minha, eu sugiro que não fiquem na clandestinidade, se manifestem, lutem, vivam enquanto há vida, e às autoridades eu peço que não demorem mais para ver o que todos já sabem. Recursos todos sabemos que existem". Herbert de Souza falou também sobre as propostas que vai apresentar ao projeto de lei sobre o controle dos bancos de sangue. Ele disse que irá propor que as doações de sangue em presídio sejam voluntárias; que o sangue passe a ser administrado por entidades públicas ou filantrópicas, e não vendido; e que o doador que não saiba que seu sangue esteja contaminado não seja punido (JB) (O Globo).