Segundo relatório da comissão especial sobre importação de alimentos, criada pela Presidência da República, toda a importação de carne pelo porto do Rio de Janeiro, no ano passado, "foi criminosa e praticada através de conluio entre a transportadora Rodoviário Michelon Ltda. e funcionários da INTERBRÁS, que receberam comissões para favorecer a empresa". A comissão também responsabiliza o ex-ministro da Fazenda, Dílson Funaro, pela falta de planejamento, coordenação e controle das importações brasileiras em 1986. A comissão, ao expor os fatos implicando diversos funcionários da INTERBRÁS-- órgão do governo que administra as importações--, pede a abertura urgente de inquérito policial. Apontada ainda a ocorrência de uma série de irregularidades praticadas por órgãos públicos responsáveis pelo abastecimento interno, que permitiram importações desnecessárias e excessivas de diversos produtos, como o arroz e milho, com prejuízos para os cofres públicos. O relatório constatou que diversos funcionários da INTERBRÁS, chefiados pelo ex-gerente de operações da empresa Paulo César Moreira, deram exclusividade à Rodoviário Michelon para operar, sem licitação, no transporte de carne entre o porto do Rio de Janeiro e frigoríficos. Permitiram também a cobrança de preços acima dos praticados no mercado, maquinaram as cargas finais e provocaram atrasos deliberados nas operações. Em troca, recebiam comissões de 5%, diretamente do diretor da transportadora, José Dornelles Michelon, sobre cada transação efetivada. A comissão apurou também a inexistência de licitação nos contratos firmados entre a INTERBRÁS e três empresas estivadoras-- Serv Port, W. Sons e Orion--, com sucessivos aumentos de preços de seus serviços "sem qualquer motivo aparente" em pleno congelamento. A transportadora Rodoviário Michelon Ltda. recebeu dos cofres públicos, por intermédio da INTERBRÁS, a quantia de Cz$162,2 milhões, pelo transporte de cerca de 81.400 toneladas de carne bovina e Cz$1,2 milhão por 2.300 toneladas de manteiga. Além de adulterar o peso da carga a ser transportada pela empresa, a INTERBRÁS contratou os serviços da Michelon a preços 20% superiores aos de mercado, na época (JB).